Visitas ilustres e pneus furados

Por: Mauro Ferreira

Sou péssimo anfitrião e nunca tive aulas de boas maneiras, motivo pelo qual nunca sei o lado certo e a serventia dos talheres em jantares, mal sei diferenciar um vinho tinto cabernet sauvignon encorpado e com leve frutado de cerejas de uma sidra Cereser. Fico olhando os vizinhos ao lado (especialmente os enólogos Zé Lázaro e Zé Olavo) para não cometer gafes muito visíveis, tipo beber a lavanda achando que é alguma entrada, como nas comédias de Hollywood. Evidentemente, no mundo de hoje, isto não tem a menor importância, pois vejo gente bem vestida em grandes camionetes hilux descartando latas de cerveja pela janela nas ruas da cidade.

Mesmo assim, quando recebo amigos em casa procuro fazer o possível para que se sintam à vontade. Nos anos 80, muitos arquitetos receberam abrigo na minha velha casa do jardim Consolação. A professora da FAU USP Raquel Rolnik, conhecida internacionalmente (relatora da ONU para o Direito à Moradia Adequada), foi uma destas. Nós a trouxemos a Franca para lançar seu livro “O que é Cidade” em 1986. Enquanto um grupo de arquitetos discutia na minha sala o evento que seria à noite na UNESP, ela foi tomar banho. De repente, lembrança inesquecível, ela estava tão à vontade que passou pelo corredor envolvida apenas numa minúscula toalha.

Noutra oportunidade, foi a vez do Nabil Bonduki, também professor da USP, autor de vários livros importantes para a história da arquitetura brasileira. Íamos a Brasília para um encontro nacional de arquitetos. Ele veio de São Carlos, dormiu em casa para sairmos de madrugada. Às quatro horas da matina, acordamos para a viagem. Eis que surge na minha cozinha o Nabil com um estiloso roupão chinês, todo cheio de desenhos de dragões, um espanto, querendo chá preto sem açúcar. Até hoje eu dou risada quando o reencontro e lembro-me daquele roupão.

Nesta mesma viagem a Brasília, ao voltar, dei carona para duas arquitetas, a Bertha, diretora do Sindicato dos Arquitetos e a Alexandra Reschke, que foi responsável pela Secretaria Nacional do Patrimônio da União. Perto de Catalão, furou um pneu. Novo, ele havia sido colocado com máquinas, não tive força suficiente para desparafusar. Não tive dúvidas. Fui para o outro lado do carro e as duas pediram para um caminhoneiro parar. Claro que ele atendeu as moças. O sujeito, com braços do Popeye, numa única virada da chave destravou o parafuso.

Lembrei do meu sogro, que levou uma penca de filhas pequenas numa Kombi para a praia em Santos nos anos 60 e o pneu furou na via Anchieta. Ele também não teve talento para tirar os parafusos. A empregada, enorme, que estava esperando o desfecho sentada na Kombi, foi logo falando: “pode deixar, sêo Cid, que eu dou jeito”. A chave de rodas não foi páreo para os braços da mulher, em cinco minutos o pneu estava trocado e “vambora que vai dar praia”.

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