O luto

Por: Maria Luiza Salomão

Antigamente, o que na velocidade dos dias de hoje se situa em torno de quatro ou cinco décadas atrás, mais precisamente no tempo dos meus bisavós, ou tataravós (século XIX), o luto era uma coisa natural. Quando morria um ente querido, todos sabiam dos rituais, podiam sofrer, chorar, tinham tempo, espaço, figurino, amigos e parentes compreensivos, até carpideiras para chorar o tempo necessário para que o coração partido voltasse a bater inteiro. O que nunca eliminou o Mistério, ao findar o doloroso “tempo do Luto”, de poder se voltar a respirar, amar e trabalhar, guardando amorosamente o que se perdeu em algum canto da alma.

Antigamente, ninguém se aborrecia com o tempo necessário para que as portas da casa se fechassem se o marido abandonava o lar, ou a mulher fugisse com outro. Todos sabiam que algo semelhante à morte havia acontecido. Todos passavam pela casa fechada, janelas trancadas. Os que gostavam dos seus habitantes oravam pelos sofredores, os que desgostavam deles fofocavam mas, lá no íntimo, sabiam das suas palavras venenosas. Calavam os gestos, disfarçavam fisionomias, e intuíam que algum malefício semelhante poderia cair sobre suas cabeças.

Antigamente, faziam-se chazinhos, bolinhos, visitas eram organizadas para conversar, em sussurros, se alguém tivesse entrado em falência, perdido sua casa em incêndio, ou fosse roubado, ferido, perseguido por inimigos.

Tínhamos ritos para as desgraças ocorridas. Vestia-se preto, debulhava-se em lágrimas, ficava-se quieto, procuravam-se solitários refúgios. Velavam-se as dores, desatinos, os desvarios, as ruínas, os massacres. Antigamente.

Não dispomos, hoje, de lugares, tempos, amigos, vizinhos, de disposição para enfrentar as nossas e as alheias desgraças. De maneira sorrateira fomos perdendo a capacidade de chorar, lamentar, lamber nossas feridas (como fazem os animais), quando nos vemos em dor e sofrimento.

Atualmente acreditamos em analgésicos (assassinatos da dor), em distrações imediatas e instantâneas, em uma pílula salvadora.

Ficamos velozes em alterar estados emocionais, mas pobres em sabedoria. Não blindamos a alma da Dor e do Sofrimento sem nos tornarmos blindados ao Prazer e à Alegria. Viramos robôs, no êxito da blindagem!

Em um filme muito agradável e divertido, Nancy Meyers, a escritora e diretora de “Simplesmente Complicado”, descreve o fim do luto longo, dolorido e assistido do divórcio de um casal, Jane & Jake. Não há atalhos para livrar quem ama da dor da perda, principalmente quando o que se perde tem muito valor. São as experiências emocionais assistidas (por amigos, pelo analista ou psicoterapeuta, e, principalmente pelos ritos que criamos para lamber as nossas fundas feridas) que nos conduzem à percepção de que os fios que nos ligam ao que perdemos são desemaranhados devagarzinho, com espírito de investigação, com cuidado e amor. Isso toma tempos, espaços, e ampliação da tolerância pela Angústia, quase intolerável, ao Mistério do “nunca mais”, do “para sempre”.

Quando o último fio (fim do Luto) se solta daquela situação, ou do ente que, de tanto amar, fazia parte do nosso mundo, parte da nossa identidade, rompemos com o mundo branco e preto, esvaziado de significados afetivos (o tempo e o espaço de Luto por coisas ou pessoas) e o mundo volta a ter cores, e sabores, e...mais amores. O mundo se amplia, semanticamente.

Não sei como um filme classificado de “comédia romântica” pode dizer tanto do que andamos perdendo ao sucumbir à crença pós-moderna de que temos o poder de criar um Frankenstein, ao renunciar a simplesmente viver a nossa complicada humanidade!

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