O novo

Por: Sônia Machiavelli

O ônibus passa rápido, vupt! Na calçada, sentado no seu carrinho, o menino vira a cabeça na mesma impressionante velocidade. Seu olhar, em milésimos de segundos, captura o movimento, a cor extravagante; seu ouvido, o barulho fofo. Então abre a boca, separa as mãos, ergue os braços e repete a interjeição com que começou a expressar surpresa diante do mundo que vai descobrindo a cada dia: ah!

Não é um ah! corriqueiro, comum, banal. É um ah! aspirado, mais parecido com ra! que sai em jato redondo de ar explodindo alegria frente às coisas que começam a se revelar. Além dos ônibus, posso listar até agora, como testemunha: algumas motos, ramalhete de flores, brinquedo que tem luzes e vozes, gato angorá que atravessou correndo o playground, todos os cães encontrados na rua, a bolinha pesada de metal brilhante que rolou macia para debaixo de um móvel e sumiu para sempre, dinossauro e robô que anunciam a telenovela, manequins infantis nas vitrines, respingos da primeira chuva da primavera, bago de uva que explodiu na mão quando apertado, o néon roxo em fachada branca de loja, movimentos do malabarista no semáforo, o próprio semáforo quando muda de cor, jatos de água de qualquer tamanho, peixes em tanques, piso de mármore em duas cores, borboleta de cristal em cima de aparador, origamis em cordão, pingente de prata em porta, brisa que no imprevisto bate no rosto suavemente, gema furada derramando amarelo em cima do arroz branco, minivagões luminosos do parque de diversões, pipocas que caem ao chão e se esparramam, controles remotos, celulares, máquinas fotográficas. Mais os pássaros do aviário do Shopping: um ah! para cada calopsita que vem bicar o pão de queijo muxibento que ele enxertou entre as grades.

Assim João, um ano e três meses, meu neto, pequeno adão em manhã primeira no paraíso.

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