O francanês

Por: Everton de Paula

Na edição de 2 de outubro de2002, eu publiquei parte deste texto. Relendo-o, verifiquei que quase nada se modificou na fala do francano da gema. Resolvi reimprimi-lo agregando alguns exemplos novos.

A cidade de Franca tem sido um exemplo rico de região geográfica onde o português tem sofrido alterações de modo marcante.

Situada a pouquíssimos quilômetros da divisa com o sul de Minas Gerais, cidade situada no extremo nordeste do Estado de São Paulo, sofrendo as influências culturais de Minas e Goiás e de todo o interior paulista que a cerca, não haveria como Franca esquivar-se de comportamentos sociais e linguísticos desta natureza.

Os exemplos pululam.

É comum entre nós “engolir” os sufixos diminutivos. Falamos “passarim” em lugar de passarinho. Vejam outros exemplos do francanês:

- “bunitim” = bonitinho

- “espertim” = epertinho

- “mininim” = menininho

- “tadim” = coitadinho

Às vezes, a coisa pega pela sintaxe. Tenho ouvido em sala de aula, em reuniões, mesmo em encontros descontraídos com amigos uma construção frásica que vai se tornando típica de nossa cidade. Consiste no seguinte: o falante, querendo pluralizar uma frase, ele o faz levando apenas a primeira palavra da frase ao plural, deixando todo o resto no singular. É uma graça... Uma incômoda graça. Por exemplo: se ele quer dizer “Que dias quentes!” ele diz “Quis dia quente!” e se dá por satisfeito, achando-se compreendido. E encontra quem os defende: os linguistas! Vejam outros exemplos:

- “quis minina legal” = que meninas legais !

- “quis aula chata” = que aulas chatas !

- “quis prova difícil” = que provas difíceis !

Não é uma jóia?

Vai-se à padaria e ouve-se do freguês: “Mi dá dois pãozim fresquim... Bem clarim!” Convenhamos, talvez fosse exigir demais que o freguês dissesse “Dê-me dois pãezinhos fresquinhos bem clarinhos!”

A linguagem afetiva não fica para trás. Tenho uma amiga que se mudou do Sul para cá. Ela anda estranhando muito o fato de ser tratada por “bem” pelas mulheres com quem tem contato. Com efeito, você, leitor, já prestou atenção como se emprega a palavra “bem” nas conversas entre mulheres em Franca?

- “ Bem, me faz um favor?”

- “Muito obrigada, bem!”

Pensamos que só as mulheres francanas é que se tratam assim. Curiosamente, tenho notado que também entre os homens há um diferencial no tratamento afetivo, sem que com isto seja maculado o machismo francano. O que quero dizer é que se tem tornado comum os homens dizerem, naturalmente, entre si, “meu querido” no escritório, no serviço, telefone:

- “Você não encontra outro carro igual por este preço, meu querido!”

Mas isto não é erro de linguagem, e sim uma cortesia na comunicação. Ou estratégia de marketing.

Será?

Os barbarismos em Franca estão estampados nos vidros traseiros dos carros. Quem já não leu frases como:

- “É véio, mais tá pago!” Ou seja, “sou pobre, mas sou ‘limpim’”.

- “Nóis tromba, mais nóis num breca!”

São verdadeiras preciosidades!

E assim vai.

Nem os outdoors espalhados pela cidade escapam dos barbarismos. Certo candidato, nas últimas eleições municipais, querendo avisar à população que estava muito atento às artimanhas da política e dos cata-votos que sempre chovem em nossa cidade nessa época, mandou escrever em tipos muito grandes e vermelhos: “Estou alerto”, querendo dizer que estava alerta. Sabemos que esta palavra é invariável; estou alerta, estamos alerta, o rapaz estava alerta etc.

Talvez não haja uma solução de efeito de curto ou médio prazo. Por isso, fico com a proposta de Monteiro Lobato: talvez devêssemos escrever um dicionário de francanês. Qual a utilidade? Muita! A de, pelo menos, passar a entender a língua de quase duzentas mil pessoas, num universo de trezentos e cinquenta mil francanos!

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