Persepólis, autobiografia em quadrinhos

Por: Lucia Helena Goulart Gilberto Pizzo

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Apresentado em forma de quadrinhos, Persépolis é uma autobiografia da escritora iraniana Marjane Satrapi. Muito interessante e atípico, o relato retrata uma rica história pessoal e globalizada. Persépolis, é bom lembrar, era a antiga capital da Pérsia, que teve seu nome trocado para Irã. O grande centro urbano situava-se a aproximadamente 70 km de Shiraz, próximo à confluência dos rios Pulwar e Kur. Ali ficava o palácio de Xerxes, derrotado por Alexandre, o Grande, que teria incendiado a rica construção em vingança por Xerxes ter feito o mesmo à acrópole de Atenas.

Persépolis foi declarada patrimônio histórico da humanidade em 1979, ano em que aconteceu a revolução islâmica e a queda do Xá Reza Pahlevi. Neste contexto está inserida a protagonista Marjane que, aos 10 anos de idade, se vê obrigada a usar o véu muçulmano e seguir normas culturais e religiosas muito mais severas que as vigentes até então. Filha de pais politizados, cultos e pertencentes à antiga nobreza do país, ela demonstra desde cedo desejo de ampliar seu conhecimento em relação ao mundo que a cerca e se transforma. Assim, neste contexto político, pergunta a si mesma: “que revolução é esta?”

O mundo de Marjane vira de ponta cabeça. Já não pode estudar em escolas mistas e se vê separada de seus amigos. Procura conversar com o seu Deus, questionando-o sobre o sofrimento de seu povo. Imagina-se, em suas fantasias de libertação do regime xiita, um Che Guevara em versão feminina. Vai contra as regras do profeta Zaratrusta e cria as suas. Mergulha no mundo da leitura. Descobre Fidel Castro, Marx e Descartes. Os novos costumes fazem com que entre em contato com sua contradição, e com a incoerência de muitos iranianos. Externamente obedecem às normas, mas na intimidade curtem o mundo ocidental, seus produtos e ídolos como Iron Maiden, Michael Jackson, Bee Gees e outros. Sob este aspecto, a história contada por Marjane aproxima de forma elegante, curiosa e importante, oriente e ocidente.

Aos 14 anos Marjane vai para Viena por determinação dos pais, momento em que a guerra entre Irã e Iraque se intensifica. A adolescente parte mas é uma partida “a fórceps”. Ela sai da cápsula iraniana e ruma para um novo cosmos. Em Viena é discriminada com a tarja de “iraniana”. Tem várias moradas desde então e vários colegas com estilos de vida alternativos.

Desamparada, envolve-se com drogas e adentra o sub-mundo. Conhece Markus e ficam dois anos juntos. Contudo, ao ser traída por ele, perde seu chão interno e externo e vai morar na rua. Vergonha e culpa habitam o seu ser. Quatro anos mais tarde retorna ao Irã. O vazio permanece, sente-se estrangeira em seu país. Volta a estudar, casa-se com Reza, mas depois de três anos o casamento acaba.

Em 1994 inicia-se o parto de nova despedida. Ela diz adeus às montanhas de Teerã, viajando com a avó ao Mar Cáspio, onde enche seus pulmões daquele ar e o retém simbolicamente. Parte, partindo-se para tentar inteirar-se e reconhecer-se como sujeito.

Persépolis foi adaptado para o cinema francês com enorme sucesso. Conjecturo que a escritora, ao escolher o título, baseou-se num mundo com menos grilhões, pois seu país natal, o Irã, em nada se parece com o seu ancestral: o império persa, reino fundado por Ciro, o Grande, até o século Vll mostrou ao mundo que unir era mais importante que dividir. Em minha mente ficou gravada a frase do pai de Marjane: “ enquanto houver petróleo, não haverá paz no Oriente Médio”...

Persépolis é leitura que vale a pena. Marjane Satrapi nos convida a mergulhar em sua história e na cultura iraniana, por demais diferente da nossa, embora os alicerces de humanidade sejam sempre os mesmos para os habitantes de quaisquer latitudes.

O filme de animação, com suporte no livro, tem como vozes originais em francês Catherine Deneuve e sua filha Chiara Mastroiani, nos papéis de Marjane e sua mãe. Ganhou o Prêmio Cesar 2007 como Melhor Estreia e Melhor Adaptação. Nos Estados Unidos, Iggy Pop emprestou sua voz para fazer o tio Anouche. O filme foi indicado ao Oscar de animação em 2008. Mas o livro é melhor.


O FOCO NA IMAGEM

Marjane Satrapi

A autora de Persépolis mora em Paris, onde trabalha ilustrando livros infantis e capas de álbuns de roqueiros como Iggy Pop. Tem 42 anos e uma interessante história pessoal, que resolveu contar num livro em quadrinhos. Pela qualidade gráfica e editorial este chegou a ser indicado ao Oscar. Ela foi a primeira mulher de seu país, o Irã, a ter coragem de publicar um relato que desmascara a história oficial escrita por membros do governo islâmico instalado após a queda de Reza Pahlevi.

Satrapi viveu com sua família, de classe média alta, os horrores do período da guerra Irã-Iraque, que abalou o equilíbrio do mundo ocidental com a entrada dos EUA no conflito. Educada em escolas francesas, foi com dificuldade e traumas que acompanhou os momentos de mudança drástica imposta pelo regime do aiatolá Khomeini, cuja influência no país perdura ainda. Khomeini, fundamentalista islâmico, armou-se contra todo o pensamento diferente, perseguindo e prendendo quem discordasse do Alcorão que ele interpretava à sua maneira. A família Satrapi, sob o governo mais ocidentalizado de Pahlevi, havia se envolvido com movimentos de esquerda, o que lhe custou caro. É um pouco dessa história que Satrapi conta em sua autobiografia. O resto são relatos de sua vida na Europa, para onde foi fugindo da crescente repressão às liberdade civis, seu retorno ao país natal e sua nova partida. Desnecessário dizer que Marjane Satrapi é moça agitada. (SM)


Serviço
Autora: Marjane Satrapi
Título: Persépolis
Selo: Companhia das Letras
Tradução: Paulo Werneck
Número de páginas: 352
Preço: R$ 46,00

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