A voz da salvação

Por: Chiachiri Filho

Os olhos de um cego estão na ponta de uma bengala. Ela é sua grande e indispensável companheira. Sem a bengala, sua caminhada seria impossível. Ela evita que ele tropece, caia ou acerte sua canela numa quina qualquer. AS cidades não foram feitas para os deficientes. As calçadas são irregulares, sem rampas nas esquinas, cheias de árvores, postes, lixeiras, acessos para garagens. Enfim, as cidades oferecem aos deficientes uma série de armadilhas intransponíveis e perigosas. Para um cego, a sua melhor arma é uma boa bengala ou o apoio de um ombro amigo.

Toninho, vendedor de bilhetes de loteria, orgulhava-se de não precisar da bengala. Cego de nascença, o mundo era para ele tal qual sua imaginação criadora o idealizava. Andava normalmente pelas ruas, calçadas e praças de nossa cidade. Virava corretamente nas esquinas. Parava à frente de uma parede ou de qualquer outro obstáculo que impedisse sua caminhada. Vez por outra ele ouvia uma brecada mais forte e continuava atravessando a rua sem se importar com o barulho .Um dia, porém, a casa caiu, ou pior, o Toninho caiu. Desabou do primeiro andar da Prefeitura. A sorte é que foi parar bem em cima de um jardim cheio de grama. Mesmo assim, ao que consta, ele continuou andando sem bengala.

De minha parte, sempre tomo as devidas precauções. Ando com a bengala à frente. Faço caminhada ao lado de um amigo e nado. Nado tendo como guia a lateral da piscina. Gostava de nadar na piscina do poli-esportivo. Embora funda, suas águas eram limpíssimas. Não tinha nenhum receio, pois não me distanciava da lateral. Certa vez, no entanto, não sei porque cargas d’ água perdi o rumo e fiquei nadando sem direção. Havia mais pessoas em torno da piscina. Todavia, só uma, o Sr. Anísio Xavier, saudoso funcionário do Poli, percebeu a minha desorientação e gritou:

-Siga a minha voz, siga a minha voz!

Bastou-me seguir o som da voz para sair são e salvo na beirada da piscina.

Portanto, prezado leitor, essa sim, essa foi para mim a verdadeira voz da salvação.

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