Biografias lançam luz a poemas

Por: Sônia Machiavelli

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“Tenho vinte e dois anos. Trabalho na roça e não tenho muitas condições de vida. Sofro muito, pois o serviço é pesado. Por isso resolvi voltar a estudar. Penso muito em meu futuro. Quero me formar e sonho em ajudar minha família e meus amigos de serviço que também vivem sofrendo(...) Quero ser veterinária (...)”
Fabiana Ramos Martins.

“Tenho trinta e seis anos, parei de estudar para trabalhar por dezenove anos, porque eu morava na fazenda e ficava muito difícil ir para a escola. Voltei devido à necessidade de terminar os estudos. Eu pensei: como vou incentivar meu filho se eu não estudei?”
Leonildo José de Castro.

“Sou casada, mãe de seis filhos e avó de dezessete netos! Quando criança eu gostava muito da escola, mas para ajudar a família parei de estudar. Hoje dou graças a Deus, pois tenho oportunidade de voltar a estudar e aprender coisas novas, como fazer poesia!”
Aparecida de Pina Roberto.


Escolhi estes depoimentos um pouco pesarosa por não publicar, questão de espaço, outros vinte e sete que fazem parte do livro Sexto Concurso de Poemas/ EJA-Educação de Jovens e Adultos, lançado nesta semana pela Secretaria da Educação do Município. Todos mereceriam estar aqui para que o leitor refletisse sobre a capacidade de sonhar de brasileiros que moram em Franca. Há gaúchos, paranaenses, baianos, mineiros e ... francanos. Gente que luta , sofre, encara desafios, tropeça e não raro cai, quando cai se ergue, nunca desiste e muito menos deixa de sonhar. Tudo isso percebemos nos relatos que acompanham texto dos autores, revelando suas histórias pessoais e valorizando a criação de cada poema. Aliás, as vidas, descritas pelos próprios protagonistas, são, elas próprias, poemas, se consideramos poesia em sua significação primeira que é “criação”. Criações esforçadas em busca de alguma beleza, as pequenas (só no tamanho físico) biografias lançam luz à produção poética dos autores. Por suas vidas compreendemos os níveis dos anseios , solicitações e demandas; também dos sonhos, palavra recorrente. Tudo transparece nos versos.

O livro é uma coletânea de alunos dos cursos de Alfabetização, Ensino Fundamental e Ensino Médio. Os temas aparecem em assuntos diversos que acabam repercutindo de alguma forma, ainda que breve, o lírico, o dramático, o épico e o didático, os quatro pilares do gênero de eleição. Isso poderia ser visto como curioso, em se tratando de pessoas que estão em processo de construção de seu conhecimento, especialmente o linguístico. Mas na verdade é o que acontece desde sempre, independente de cultura ou idade. Motivado por algo que mobiliza seu mundo interior, quem se sente atraído pela palavra como forma de expressão acabará por se filiar a algum dos quatro tópicos que balizam os principais motivos poéticos que comparecem separados ou esbarrando-se em formas rimadas ou versos brancos. Destaco pela ordem estrofes dos primeiros classificados.

“Nessas terras brasileiras/ Onde cantava o sabiá/ Já não vejo tantas palmeiras/ Nem ouço o seu cantar// As aves que aqui gorjeavam/e te deram tanta inspiração/Parte delas não existe/ Outras tantas em extinção. (Há dias, Lúcia Aparecida de Castro Costa).

“Ser certo, estar errado/ Ser errado, estar certo/ Seguir em frente, estar no futuro/ Parar no presente ou permanecer no futuro// Ser, estar, quando, em qual lugar?”( Confundidos, Washington Luís Alves)

“As descobertas de uma vida lhe entrego/ Como uma herança amorosa e singela/ O que se aprende enriquece/ Um bom conselho acalma/O preconceito a gente esmaga/ Um abraço é remédio para a alma” (Legado de uma avó, Zélia Pereira dos Santos).

Toda manifestação de arte aproxima os seres humanos, independentemente de suas histórias. Tanto quanto melodias, canções, filmes, peças, pinturas, esculturas e narrativas, poemas são mobilizadores de emoções. Embelezam, vitalizam, inspiram, amparam quem por eles se deixa tocar. Toda arte humaniza, distancia da barbárie e da selvageria, convida a viver com liberdade e sem medo. Também desvela o que há de comum em nós, humanos, e que nos distingue dos animais: os afetos, os sentimentos, os sonhos. Por todas as vias, a arte confere um sentido maior às nossas precárias existências. É o que nos fazem sentir, por diferentes olhares sobre a realidade, os trinta autores do livro “Sexto concurso de Poesia”, uma das mais comoventes e louváveis iniciativas na área da educação municipal neste ano.


PARCERIAS INSPIRADORAS

Vários autores

O livro resenhado ao lado muito provavelmente só tenha sido publicado em razão do estímulo, da esperança, do exemplo e do empenho dos professores que o idealizaram, sob liderança de Leila Haddad Caleiro, Secretária de Educação do município e, principalmente, educadora que sabe motivar seus comandados. Estes mestres exercem papel de grande importância na vida de seus alunos, que buscam o conhecimento e, com ele, a ampliação de sua capacidade de ler o mundo, o outro e a si mesmo. São jovens e adultos que pedem mais que uma aprendizagem do alfabeto, como diz belamente a aluna Jaqueline Sanches Guimarães, 37, casada, grávida do segundo filho: “ sinto que tenho muito a aprender e a fazer por mim”.

Como ela, e os outros já citados, também buscam ampliar horizontes inclusive pela via poética, Adaísa Aparecida de Souza, Aparecida de Fátima Santos, Débora Domenegueti, Edvânia Aparecida de Bessas, Gedeon Alves da silva, Geisane Priscilla de Sousa, Habner Neves Carreira, Iara Regina Lice de Oliveira, José Dias dos Reis, Judith Maria dos Santos, Keila Tatiane de Sousa Antunes, Luiz Gonzaga, Margarida Souto Nascimento, Maria aparecida Venancio de Castro, Maria da Conceição Rodrigues Coimbra, Maria das Dores C.V. Bernardes, Maria das Dores Santos Silva, Marinalva Matos da Silva, Marta Regina Barbosa, Milene Gisele Frois, Nília Gandra Evangelista, Sônia Regina Camilo dos Santos, Suzy Mary Malta.


Serviço
Título: Sexto concurso de Poesia/ EJA Educação de Jovens e Adultos
Autores: Trinta alunos do EJA
Número de páginas: 56
Prefácio: Valdes Rodrigues
Onde encontrar: Biblioteca Municipal de Franca

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