O distraído Ataxerxes

Por: Everton de Paula

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Nascido na família dos Pamplona, na pequena e honrada cidade de Cambará do Sul, próxima a Quixeramobim, no interior do Ceará, meados do século passado, Ataxerxes teve uma infância normal e tão feliz quanto um passarinho - sem nada para fazer o dia inteiro e uma vastidão para percorrer, céus e campos a admirar. Moço ainda, não chegou a se constituir no exemplo biotípico que atraísse olhares das mocinhas. Daí ter-se tornado imperativa a solteirice até o fim de sua vida, em face também da formidável protuberância nasal, sobre a qual se apoiavam duas grossíssimas lentes de óculos. Desconheço melhor repelente feminino.

Formou-se professor numa faculdade distante de sua terra. Quando retornou, ingressou por concurso público na escola de Cambará, fato que provocou muito disse-que-disse entre os habitantes, sugerindo politicagem e subestimando a inteligência do rapaz celibatário.

Ataxerxes Pamplona esmerava-se na polidez com que tratava as pessoas, alunos e superiores escolares. Afinal, era o mínimo que poderia fazer no mundo dos normais. Isto porque não era só feio... Talvez fosse o mais distraído das criaturas de que Cambará e região chegou a tomar conhecimento, fato mesmo comentado até em Fortaleza, nos meios acadêmicos e sociais. De suas atitudes reais ao que mais tarde se tornaria folclórico foi um pulinho de sabiá. Quem não se lembrava de certa tarde, ao sair de casa rumo à escola, quando parou para acender o cigarro? Como ventasse muito, virou-se de costas para o caminho que seguia e, com certo custo, acendeu o seu Beverly. E seguiu caminho em frente, sem virar-se para a direção certa da escola. Foi parar obviamente em sua casa. Entrou, reconheceu estar no próprio lar, entendeu então ter havido chegado ao fim das aulas daquele dia, tomou seu banho e preparou o lanche... Da manhã!

Entre tantos desencontros, havia pessoas que se compadeciam do pobre rapaz. Aconselharam-no a procurar um médico em Quixeramobim, um especialista em “cabeça”, um neurologista. Ataxerxes, mais para agradar seus pingados amigos que propriamente por entender a gravidade da situação, marcou consulta com um médico dos nervos. Uma semana duraram os exames, diagnóstico e receitas. O médico realmente constatou haver algum princípio de irregularidade no funcionamento cerebral de seu paciente. Além de alguns medicamentos, recomendou-lhe 83 exercícios neuróbicos para prevenir a perda da memória e aumentar a agilidade mental. Nem vou narrar a confusão levada a cabo por Xexéu (seu apelido) diante de 83 exercícios que exigiam do cérebro certa disposição proativa. O exercício nº 2 foi trocado pelo 23, o 7 pelo 81, os remédios tomados em excesso num dia, em escassez noutro, de forma que o professor deixou de ser distraído para cometer gafes inomináveis. Atrapalhou-se de vez.

Pelo que me contaram, alguns casos tornaram-se muito conhecidos. Vou tentar reconstruir quatro deles: primeiro o moço era muito rígido como professor. Exigia que os alunos se levantassem quando ele entrava na sala de aula. No início de dado ano letivo, assim o fez; todas as crianças se levantaram, menos uma que teimou em ficar sentada, no fundo da classe. Ataxerxes passou-lhe uma histórica descompostura. Segue a aula. Fim da mesma. O professor inicia sua saída da classe. Todos os alunos se levantam, menos aquelezinho. O professor manda todos os alunos se retirarem e diz, aliás, grita para o rapaz sentado toda uma lição de moral e procedimentos. Até que um jovem, à porta, pede licença, entra, toma o aluno nos braços (era seu irmão), e o leva até a cadeira de rodas. A criança era paralítica.

Segundo Xexéu, numa tarde, à procura de um livro, foi à livraria da cidade. Encontrou uma jovem senhora a quem conhecia de vista; uma vizinha. Cumprimentou-a e vendo sua barriga um tanto crescida, deu-lhe a mão e disse: “Parabéns pela gravidez. É para quando o nascimento?” A jovem senhora enrubesceu-se toda e respondeu baixinho, quase chorando: “Não estou grávida, não senhor. É um tumor que vem se espalhando pelo estômago!”

Terceiro novamente na escola. Xexéu tinha a mania de exigir higiene corporal dos seus alunos. E de vez em quando percorria as fileiras entre as carteiras para, por exemplo, verificar a limpeza sob as unhas. Até que se deteve ante um aluno novo que ousava não mostrar as mãos. O professor irritou-se, puxou-lhe a orelha (naquele tempo podia-se encostar a mão no aluno) e exigiu que o aluno lhe mostrasse as mãos. Então o pequenino jogou sobre a carteira um pedaço de braço: faltava-lhe a mão direita, perdida num acidente!

Quarto quando Ataxerxes estava por se aposentar, já sexagenário, teve alguns problemas dentários que o forçaram a arrancar todos os dentes superiores e usar dentadura. Pois bem, num final de período escolar, estando na calçada, esperando a passagem do caminhãozinho de leite, ao lado da maioria dos alunos e professores, deu, sem que quisesse, um espirro medonho, que fez voar a dentadura para fora. Mas não foi só: aquele monte de dentes colados foi parar sobre a sujeira fresquinha que um cachorro deixara há pouco perto do pé do poste.

Sei, sei muito bem, reconheço com o leitor que a coisa beira o escatológico, mas vou deixar para a imaginação de vocês o que se passou em seguida. E nos dias seguintes. Ataxerxes só piorava, embora as aulas tivessem lá sua lógica, como também o homem mantivesse alguma atitude comportamental que o aproximava agora só um pouquinho dos normais.

Até que um dia acordou (e ninguém até hoje sabe dizer o como e o porquê) com uma lucidez espantosa. Adquiriu ciência completa e clara de si e de tudo o que o rodeava. Em poucos minutos, vieram-lhe à mente não só tudo o que lhe acontecera, mas também um exercício mental crítico sobre os acontecimentos e sua própria vida. Esqueci-me de lhes dizer que o homem era professor de Química.

Ciente de sua condição de feio, velho, esquifoso, preterido, distraído, esquecido, rei das gafes, solteirão, solitário, sentiu-se subitamente o berne, o pus de Cambará que precisava ser expurgado. Entendera que Ataxerxes Pamplona sobrava no mundo dos normais Dirigiu-se silenciosamente ao laboratório de química da escola. Sozinho, preparou um combinado mortal de substâncias líquidas e o tomou de um só gole. Caiu estendido. Estendido e mortíssimo. Optou pela autoexpurgação.

Ah, sim: a maldade dos homens. Cambará suspirou aliviada!

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