Fiquei deveras emocionado

Por: Luiz Cruz de Oliveira

Eu saía da banca de jornais, diante do antigo Cine Avenida, quando um carro estacionou ao meu lado, e o motorista chamou-me pelo nome.

Era o dono do Comércio da Franca. Ele ignorou preâmbulos.

- Gostaria que você escrevesse semanalmente para o jornal.

Conversamos pouco, prometi pensar a respeito do assunto. Muitos inconvenientes me desestimulavam, sobretudo o fato de meus companheiros de partido serem, em sua maioria, indispostos com o dono do jornal. Assim, fui protelando a resposta.

Meses depois, era domingo, eu descia a Rua General Osório, e um carro estacionou a meu lado. Era o Correa Neves, acompanhado da esposa. Ele reiterou-me o convite e assegurou:

- Você pode até falar mal de mim que eu publico.

Nunca falei mal nem bem do jornalista. Mantivemos sempre um relacionamento respeitoso, sem mimos, sem rudezas.

Até aquela época, eu só escrevera dois tipos de textos: um, em linguagem que pretendia literária; outro, defendendo teses políticas, ou defendendo-me de ataques aos meus posicionamentos partidários. Não sabia hoje sei disso - como comunicar-me com o leitor de jornal. Apesar disso, aceitei o convite e me impus compromissos: não utilizaria o espaço do jornal para discutir política; faria tudo para ajudar a desenvolver um espaço literário no jornal; tentaria escrever de forma acessível ao público leitor de jornal.

Alcançar uma forma que não se afaste demais da linguagem literária tem sido luta insana e semanal. Apesar disso, estou longe do pretendido.

Manter-me, como cronista, afastado dos embates políticos é luta diuturna no coliseu interior.

O Correa Neves, pai, se foi, e eu continuo publicando semanalmente no Comércio da Franca. Meu relacionamento com seus filhos tem sido altamente respeitoso e, em todas as ocasiões, recebo dos rapazes deferências imerecidas.

O Correa Júnior tem mantido a promessa do pai: jamais me censurou sequer uma palavra. De meu lado, tenho procurado ser fiel às orientações que estabeleci para mim mesmo. E isso me tem custado muito.

Custou-me muito esta semana.

Em artigo de sua autoria, o filho do Correa fez referência a mim, lembrou atitudes minhas.

Fiquei deveras emocionado.

Os impulsos primeiros pediam-me um texto rememorando fatos, complementando outros, avaliando posicionamentos, esclarecendo mal entendidos, mal ditos.

O coração se aquietou logo.

Afinal, se o filho - jornalista de escol - honra o compromisso firmado lá atrás, porque não manter eu a promessa feita a mim mesmo e trabalhar pela mantença de um caderno literário na cidade?

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