Novo formato de família inspira filme

Por: Sônia Machiavelli

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Reunir nomes exponenciais em suas áreas de atuação nem sempre é garantia de sucesso para um trabalho. Em Minhas mães e meu pai, lançado no ano passado, Julianne Moore ( As horas) e Annette Bening (Beleza americana), protagonistas; Mark Ruffalo ( Ilha do medo), personagem deflagrador do principal conflito; os belos Mia Wassikowska e Josh Hutchersson, de Alice no País da Maravilhas e Viagem ao Centro da Terra, respectivamente, como os jovens coadjuvantes Joni e Laser, são todos atores de reconhecida competência. Mas, como dizem os jovens, o filme “não causou”. Talvez a responsabilidade deva recair sobre a diretora Lisa Cholodenko, que tem mais visibilidade na mídia que trabalhos de relevância no currículo.

A história se sustenta no relacionamento de uma família diferente dos padrões convencionais. Nic (Annette) e Jules (Julianne) formam um casal. São mães de Joni, 18, e Laser,16. O pai é o mesmo, Paul (Ruffalo). No passado que lhe parece distante, ele doou sêmen para um banco de reprodução humana. Ignora que tenha dois filhos adolescentes: a moça estudiosa que entra numa universidade de prestígio e o rapaz que faz o gênero esportista. O estímulo que mobiliza a busca não fica claro, mas lá um dia Joni convence Laser a procurar pelo pai de ambos. Eles o encontram com certa facilidade.

A entrada do pai até então desconhecido na vida da família traz transtornos de variada intensidade. Como qualquer estranho que chega a um microcosmo organizado, ele provoca sentimentos que vão da curiosidade à antipatia, do acolhimento à repulsa. O tema do estrangeiro já foi explorado incontáveis vezes, em diferentes culturas e momentos da história da humanidade. Nada de novo, portanto, a não ser a composição da família, ainda atípica.

No mundo em que vivemos, onde as mudanças acontecem com impressionante rapidez desde final do século passado, começam a proliferar outros modelos de estrutura familiar, além do que vigorou até há pouco. E é preciso estar atento à família e ao modelo tradicionais, uma vez que ambos vêm passando por transformações profundas, influenciadas também pelos avanços da ciência, tenta nos dizer a diretora em off. Novas configurações surpreendem a cada momento. Nos Estados Unidos, já há muitos jovens à procura de quem foram os doadores de sêmen e óvulo que os geraram. O tema é pois oportuno. A indagação que persiste é se Lisa acertou na escolha do gênero para a história que pretendeu contar.

“Achei que o tom irônico seria apropriado ao tema. Há algo de profundamente ridículo nessa história. E sério ao mesmo tempo”, disse ela no lançamento. Talvez esta resposta explique a irregularidade do enredo, ao qual a autora tenta impor desde a primeira cena um clima de absoluta normalidade, o que não existe o tempo todo em nenhum lugar. Resulta então que o filme fica a meio caminho entre o drama e a comédia, o que lhe tira a força e o impacto. Falta densidade e a espontaneidade que se procura conferir deixa uma impressão contrária, de superficialidade. Conflitos existem onde quer que humanos se reúnam, independentemente de suas opções sexuais. Em muitas situações a diretora se esquece disso. Não deveria.

Em Portugal, onde traduziram o título para Os miúdos estão bem, tão ruim quanto a versão para o português do Brasil, Minhas mães e meu pai, a diretora foi entrevistada para o site do jornalista João Antunes. Ali deixou clara sua intenção de “ fazer um filme sobre a família, as dificuldades e a luta permanente e necessária para se manter os membros unidos”.

Com o objetivo de cumprir o que pretendia, Lisa Cholodenko deveria ter investido mais numa das forças disponíveis e inquestionáveis, que é a competência do elenco, especialmente na triangulação amorosa. Sim, porque Jules sente-se atraída sexualmente por Paul e ambos têm um caso, descoberto por Nic. Esse aflorar de sentimentos vulcânicos como ciúme e raiva, tanto na relação do casal como na relação das mães com seus filhos, poderia render mais subsídios para que o filme não se fechasse de forma rasa e um tanto moralista. Esta percepção fica ainda mais nítida quando no final da entrevista citada a diretora, respondendo a uma pergunta, diz que empregou a expressão all right, (no título original, The kids are all right), “como a dizer que afinal estão todos bem, apesar de as mães serem lésbicas”.

A locução prepositiva configurou ato falho que pode explicar uma certa fragilidade na direção do filme, indicado ao Globo de Ouro e ao Oscar, ano passado, na categoria Melhor Roteiro Original. Terá merecido? Pela escolha do tema, sim. Pelo desenvolvimento dele há dúvidas.


CINEMA INDEPENDENTE

Lisa Cholodenko

A carreira de Lisa Cholodenko, 47, americana de Los Angeles, começou em 1990, em séries para a televisão de seu país. Desde então ela vem desempenhando funções de produtora, roteirista e diretora. Seu primeiro trabalho assinado data de 1994 e se chama Souvenir. Depois, pela ordem, vieram Dinner Party (1997), High Art (1998), Homicídio (1998), A sete palmos (2001), Push, Nevada (2002), Laurel Canyon (2002), Cavedweller (2004), A letra L (2005). Com The Kids Are All Right ganhou visibilidade e indicações a dois prêmios master: Globo de Ouro e Oscar, por Melhor Roteiro Adaptado. Mas seu nome já se tornara conhecido com High Art e Laurel Canyon, filmes que lhe conferiram estatuto de “ícone de um certo cinema independente americano”. Isso significa fugir dos esquemas comerciais dos grandes estúdios e distribuidoras.

Como as protagonistas do filme comentado ao lado, ela tem um relacionamento estável com outra mulher e um filho concebido por inseminação artificial, atualmente com cinco anos. Sobre o filme que a tornou conhecida, diz que quando estava escrevendo a história, pensou por qual razão ninguém o tinha feito antes, pois o assunto é muito atual.


Serviço
Titulo : Minhas mães e meu pai
Duração: 104 min.
Origem: Estados Unidos
Direção: Lisa Cholodenko
Roteiro: Lisa Cholodenko e Stuart Blumberg
Distribuidora: Imagem Filmes
Censura: 16 anos
Ano: 2010
Onde: Breve nas locadoras

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