Reflorestamento da alma

Por: Jane Mahalem do Amaral

Secura, pó, nuvens de poeira. O sol queima, ar rarefeito, espaço azul sem nuvens... Calor, cansaço... Desejo de água... O caminhante para. Ele precisa chegar, mas seus pés doem, a garganta está seca, as forças vão se findando... O olhar no horizonte procura uma árvore. Verde.

A cena parece de filme, mas os passos do homem estão realmente em busca daquilo foi destruído. Onde guardaram nossas florestas? Onde fica a sombra verde que alivia o cansaço da viagem?

Quem vem lá longe? Devagar, vem se aproximando... Chega mais perto e mostra seu rosto. O homem o reconhece. Ele se chama desespero e se veste apenas com a certeza das pedras e da solidão. Como chegar? Como terminar o caminho? Será que o homem conseguirá se desvencilhar desse novo visitante para encontrar a solução? Será que haverá uma sombra a sua espera? Ou ficará ele ressequido à beira da estrada sem água, sem voz e sem pés para continuar...

Estamos em busca do reflorestamento do planeta antes que tudo se acabe. Não há muito tempo a perder. Logo estaremos nos aproximando do infortunado visitante chamado desespero. Alguns olhares já se voltam para a salvação, mas ainda há muitos exploradores convictos, preocupados apenas com seus umbigos. Será uma marcha de luta dos conscientes, enfrentando uma multidão de inconsequentes.

O barulho excessivo, o consumo desenfreado, a falta de limites, a ética só usada como palavra bonita, o desrespeito ao outro, o poder que abusa e o dinheiro sempre no lugar do deus todo-poderoso... Estamos vivendo um desmatamento interno. Nossos valores sofreram lesões irreparáveis, perdemos o caminho quando deixamos as lições de nossos avós e corremos, sem rumo, em direção às novas formas de sobrevivência. Encantamo-nos com a tecnologia fácil, rápida, deixamos nossos filhos imporem regras no momento em que não tinham maturidade para isso, brigamos por causa da diversidade das religiões, e aprendemos que ter personalidade é ter a voz mais alta conjugada a uma postura que intimida. Foi nos ensinado que a luta tem que revelar sinais de força e poder.

Assim fomos estraçalhando o mundo externo, mas também nosso habitat interno. Estragamos as relações com a desconfiança no outro, substituímos, com muita rapidez, o velho pelo novo (e o novo pelo novíssimo!), sujando cada dia mais o planeta com acúmulo de lixo. Desaprendemos o respeito. Surpreendemos o afeto com palavras duras, revestimos nossa voz com tons de ironia e julgamentos.

E agora? Onde estamos nós, caminhantes também sem rumo, em busca de um oásis. Onde está a água pura, a sombra refrescante e a verdade dessa travessia? Perdemos o rumo e a lucidez. Desmatamos também nossa alma. Medo de encontrar também aquele que se chama desespero... Sabemos que vamos acordar desse sonho ilusório, mas onde está a Fonte? É tempo de reflorestar a alma. Sem ela continuaremos no desequilíbrio ecológico, humano e espiritual. Sem ela, impossível salvar o planeta. Sem ela, impossível caminhar em direção ao verdadeiro horizonte.

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