A miragem

Por: Mauro Ferreira

Ele era policial militar com uma longa folha de serviços prestados à corporação, sempre em serviços de trânsito. No entanto, seu sonho era ser um daqueles investigadores policiais que lidam com criminosos difíceis de apanhar, como serial-killers e outros tipos de assassinos imprevisíveis. À noite, para descansar e relaxar da bagunça que havia se tornado o trânsito depois que um prefeito relapso e incompetente havia retirado todos os radares de velocidade das ruas, gostava de ficar sentado sozinho no sofá à frente da TV assistindo aqueles enlatados americanos com investigações científicas, que o Silvio Santos mudava de horário de repente.

Invariavelmente a mulher tinha que vir de madrugada acordá-lo no sofá, a televisão nova de LED com prestações a pagar no magazine ligada em baixo volume, que ele não queria acordar os meninos que tinham que acordar cedo para a escola. Seu ronco era mais alto que o som da TV, a mulher achava ruim, mas entendia que ele precisava desanuviar a cabeça depois de um dia sob o sol lidando com motoristas malucos num trânsito caótico.

Naquele domingo, foram convidados para uma festa no restaurante situado no topo do prédio mais alto da cidade, que tinha uma bela vista panorâmica da paisagem urbana. Era mais uma daquelas festas que o comandante da guarnição fazia para agradar políticos e empresários, que cada vez mais reclamavam da segurança e dos assaltos de bandidos atrevidos.

Encostou-se ao parapeito e ficou olhando, comentando a beleza do céu da cidade, com seus prédios espetando as nuvens. Depois, ficou olhando as casas antigas do centro da cidade, até que viu um corpo estendido no chão, no quintal de uma casa. O sol esturricante poderia sugerir uma jovem querendo ficar com a cor do pecado e do verão. Ele ficou olhando aquele corpo que não se mexia. Distraiu-se, foi dar voltas, conversou, bebeu uns goles, beliscou os petiscos, mas aquilo não saia de sua cabeça. Voltou ao parapeito e olhou, o corpo não havia se mexido, quase uma hora após.

Sentiu um choque. Aquela mulher estava morta, assassinada. Despistou o comandante e desceu correndo as escadas, nem quis esperar o elevador lotado. Foi bufando até a casa do corpo estendido e apertou a campainha. A demora para alguém atender foi como um aviso que havia um crime ali. Quando a porta abriu, ele não perguntou nada, empurrou a mulher que abriu a porta e entrou correndo, com a arma na mão. Quando chegou ao fundo, uma velhinha estava deitada no cimentado do quintal, fazendo topless. O susto foi grande, pois ela se virou com os peitos de fora e gritou, gritou desesperadamente, quando viu o homem armado na sua frente. Ele também se assustou e deu meia-volta, a outra mulher estava desorientada na porta, sem saber o que fazer diante daquela intrusão violenta.

Sem saber o que fazer, desnorteado, saiu correndo por onde entrou e desapareceu. Por via das dúvidas, as velhinhas nunca mais fizeram topless.

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