Releituras

Por: Sônia Machiavelli

Adorei ler o texto que Luís Pondé escreveu sobre Alain de Botton por ocasião do lançamento do livro Religião para ateus, que já está chegando às livrarias brasileiras. No seu artigo, Pondé retoma uma frase do jovem ensaísta: “Há mais sabedoria nos livros de Proust do que em todo Novo Testamento”. Explica-se, para não ficar descontextualizada e causar algum mal-entendido: Botton , autor de Como Proust pode melhorar sua vida, defende a ideia de que grandes escritores têm condição de mostrar aos leitores verdades sobre a condição humana, de forma a confortá-los diante das fragilidades, angústias e dúvidas que acometem os que não temem pensar e os que se deixam tocar pelos afetos.

Também gostei muito das considerações de Marcelo Coelho sobre a poesia do ganhador do Nobel de Literatura deste ano, Thomas Transtromer, opondo os processos de criação do poeta sueco e do ficcionista francês. Enquanto este inicia a narrativa de Em busca do tempo perdido relatando sensações de quem dorme levando para o sonho cenas e personagens, e com eles se confunde, aquele caracteriza sua persona poética por um estranhamento diante da vida , como se acordasse de um sonho e dele trouxesse elementos que povoam seus versos . Um imerge, outro emerge, ambos criam a partir de percepções diferentes da realidade.

Mas além de minha paixão pelo romancista, que me leva a ler todo comentário que encontro sobre ele, na semana passada havia uma coincidência, ou esse fenômeno a que chamam sincronicidade, para que me detivesse, com muito prazer , nos dois articulistas da Folha. É que três dias antes eu havia postado no Face um comentário dizendo que enfim me permitia abdicar de alguns compromissos para viabilizar meu projeto de reler nos próximos meses todo o Proust, a minha Bíblia. Ou seja, 3009 páginas traduzidas de forma competente e sensível por Fernando Py, também poeta, crítico literário e redator.

À pergunta (quem ainda lê Proust?) que colocou Coelho ou Pondé, já não me lembro mais, pude responder silenciosa e afirmativamente com a primeira pessoa do singular e a certeza de que é o melhor que tenho feito ultimamente. Com o avanço dos anos, o tempo que resta viver torna-se muito precioso. Entre iniciar nova leitura sem a precisa dimensão do que encontrar, ou reler o que produziu no espírito impressões impactantes pelo descortínio de coisas insuspeitadas, tenho ficado com a segunda opção. E, com isso, vou descobrindo nuances, entrelinhas, frases , descrições, insights e conexões entre fatos e personagens que na primeira leitura me haviam passado despercebidos. Muito provavelmente porque eu não existisse então como hoje, já que somos seres mutantes que agora vemos azul o que amanhã será percebido como verde, e ora absorvemos incólumes os impactos que no instante anterior teriam nos desmoronado.

Quando jovens, tendemos a achar que o presente é o único estado possível das coisas, nos sugere Proust em alguma das páginas de À la recherche, para concluir muito à frente que isso é ilusório, pois “ os dias são iguais apenas para um relógio.” Neste contexto, marcado pelo signo da transformação constante, reler pode significar incursionar a regiões conhecidas com mais ferramentas, diferentes aparatos e novos olhares. Haverá desvelamentos, com certeza.

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