Inocência

Por: Janaina Leão

Isso de escrever é quase um anelo. Nada me reflete mais que a folha em branco - paciente.

É por isso que estudo as próclises. Diz a regra: num período ela sempre prevalece, salvo algumas exceções.

Minha busca pela gramática vem quase como um pedido de socorro. A salvação de um “Eu” em “Nós” -através da palavra desatadora.

Um dia li da minha poetinha triste, que escrever para ela era quase como salvar uma vida e refletindo ela conclui: talvez a minha. Achei-a tão clara! Clarice...

Vim ao mundo - desejada. Cresci nostálgica e por isso, ás vezes, penso que a saudade nasceu comigo.

Em falando de uma infância alegre mas por vezes insone, lembro do Fazendão - chácara de dois alqueires do meu avô. Nosso pedacinho de céu.

Ele se dizia católico-espírita e tinha dois traços marcantes: doçura e ira.

Era tão bom acordar ali: o pão com manteiga cuidadosamente partido e me esperando ao lado da xícara de café forte.

— Ô minha fia, venha ver a Cascavel que o vô matou! Tava entrando dentro de casa mas o Duque avisou.

O veinho dizia todo orgulhoso, limpando a cartucheira logo após ter arrancado o guizo da cobra e a dependurado na cerca ao lado de algumas outras.

— Tem que chamar o Padre pra benzer aqui fia!

Décadas depois... Hoje cedinho, tomando meu café de microondas e tentando enxergar-me na folha estática e suave, pensei: Obrigada Senhor! Aprendi o amor, sem falar nele. Pão com manteiga, café quentinho e Deus.

Eu nada sabia sobre padres e serpentes.

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras