“A vida é espera”

Por: Maria Luiza Salomão

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O título aspeado reproduz fala de Wilbur Larch, ginecologista e obstetra do filme Regras da Vida, delicioso e anti-convencional médico ((Michael Caine, ganhador de Oscar de Melhor Coadjuvante). Atende em tempo integra, em um orfanato chamado Saint Cloud (Nuvem Santa), as crianças abandonadas pelos pais.

Homer Wells é um órfão adotado por Wilbur, depois de duas mal sucedidas tentativas de adoção por duas famílias. Entre Wilbur e Homer acontece uma relação profunda pai-filho. Wilbur ensina a Homer o ofício de ginecologista e obstetra, mas, sobretudo, transmite a ele seus valores humanos. Wilbur dá assistência médica às mulheres que não querem ser mães, que o procuram no orfanato, desesperadas, às vezes depois de tentativa suicida de abortar a gravidez indesejada. Ambientado nos anos 30-40, vemos o drama do aborto, ilegal. Homer rejeita a posição, controversa e humanitária, de Wilbur. Talvez por imaginar que poderia não ter nascido (isto, claro, em teoria).

É enorme a carga emocional que Wilbur carrega. No orfanato duas enfermeiras, Wilbur, Homer e os órfãos se organizam como família, talvez mais cuidadosa uns com os outros do que muitas famílias-padrão.

Ao esperarmos, impacientes, na sala de espera de um médico, esquecemos que ele está atento às emergências (alguém pode estar em risco de vida, e terá prioridade). Há uma polissemia de sentidos na frase citada de Wilbur A vida é espera. A Vida é movimento contínuo. A Morte é ruptura, descontinuidade. Viver demanda crença na marcha da vida, em confiar na cadeia de eventos que sustentam o ser vivo, no favorecer a experiência de sentir-se íntegro ao lutar pela sobrevivência (é uma questão prática).

Freud foi influenciado por Charcot, médico francês, que gostava de citar um aforismo: “o médico pensa (cuida, faz curativos), Deus cura”. Charcot também dizia ser necessário observar os fatos até que eles falassem por si mesmos. Wilbur e Homer são observadores, introspectivos. Wilbur reitera, várias vezes, o desejo de ser útil a qualquer manifestação de vida.

Homer e Wilbur manifestam expectativas cruzadas. Wilbur, como típica figura paterna, anseia que Homer o suceda no orfanato. Homer, por sua vez, deseja abandonar o universo protegido, sua família adotiva e adotada, para conhecer o mundo (e ele mesmo) fora do orfanato. Como em um romance de formação, Homer confronta os valores aprendidos em teoria (através de Wilbur) e as suas experiências vividas no mundão “lá fora”.

As regras da Casa de Cidra, título em inglês, destaca a vivência de Homer como colhedor de maçãs na propriedade de Wally, casado com Candy, que vai se se apaixonar por Homer, e ser correspondida, quando o marido dela se afastar por causa da guerra.A princípio Candy é como mãe para Homer, que em meio a vivências conflitivas, entre teoria e trática, vai se desenvolvendo. Diz o Sr. Rose, líder dos colhedores de maçãs, que “às vezes é preciso quebrar algumas regras, para que as coisas se ajeitem melhor”. Delroy Lindo, o ator negro que faz o Sr. Rose (talvez o maior vilão do filme, embora tenha lá sua ambiguidade), pensa que a história mostra o confronto de uma vida em teoria, segundo regras feitas para moldar as pessoas, e os desajustes que estas regras provocam na vida das pessoas, e no seu entorno.

O ser humano tende a fazer teorias sobre si mesmo, sobre sua vida e elabora, constantemente, teorias sobre o mundo. Mas é a sua experiência pessoal que lhe confere não a inteligência do mundo, mas a sabedoria dele.

Competente e digno em uma área, o ser humano pode ser frágil, corrupto, bizarro, em outra área vital. A dignidade humana trilha uma corda bamba, e não há regras, teorias, como rede de apoio, a nos livrar dos riscos do viver.

O médico trilha perigosamente uma corda bamba, na lida com os grandes problemas humanos. Como Wilbur, os médicos se veem impotentes, limitados, para solucionar questões endêmicas da Humanidade. Pobreza, Ignorância, falta de Recursos Psíquicos e de oportunidades de crescimento.

Esperar e observar, antes de atuar, são atitudes (ethos) que nos ajudam a duvidar de teorias, de regras impostas (ou auto-impostas). Esperar e observar são atitudes fundamentais aos pais, médicos e psicanalistas. Não são técnicas (teorias ou regras) de abordagem. São atitudes humanizantes.

Esperamos todos no Centro Médico, para ouvir a dra Beatriz T. Bussato, psiquiatra e psicanalista, membro efetivo da SBPRP. Hoje, às 14:30h.


DIRETOR

Lasse Hallström

Diretor sueco, indicado para o Oscar de Melhor Direção, por duas vezes: pelo filme Minha Vida de Cachorro, 1985, e Regras da Vida, 1999, resenhado ao lado. Os temas dos seus filmes giram em torno de famílias atípicas, e causam estranheza e profunda emoção. A sua narrativa, ao esbarrar em intensidades psíquicas que se originam de complexas relações humanas, mantém um tom leve e espirituoso. Hallström se gaba de que suas histórias de amor não cabem em um só gênero. Chocolate, 2000, foi um filme muito bem recebido pela crítica, e foi analisado este ano no evento Cinema & Psicanálise, uma interessante fábula.

Lasse trabalhou em fina sintonia com John Irving, autor do Best-Seller As regras da Casa de Cidra, título do filme em inglês. No Brasil o filme foi rebatizado como Regras da Vida.

Irving trabalhou por 13 anos no roteiro e fez duros cortes em personagens e na trama, para adaptar o seu romance, de mais de 800 páginas, às duas horas no cinema.


Serviço
Título: Regras da Vida
Direção: Lasse Hallström
Duração: 131 minutos
Gênero: Drama
Elenco: Tobey Maguire, Charlize Theron, Delroy Lindo, Paul Rudd, Michael Caine, Jane Alexander, Kathy Baker.
Onde: Hoje, às 14:30h, no Centro Médico de Franca

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