Não somos anjos

Por: Everton de Paula

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Ana Tereza foi daquelas adolescentes deslumbrantes. Curtiu as baladas de seu tempo, coisa aí da primeira metade da década de 1980, em clubes e boates de sua cidade, ao som maravilhoso das melodias e da voz grave e profunda de Barry White. Na pista de dança, fazia jovens se enamorarem pelo doce gingado de um corpo perfeito e o feitiço de seus olhos esverdeados, emoldurados, é claro, por cabelos soltos e revoltos, loiros como o sol, para o desassossego e a pontinha de inveja das que se julgavam inutilmente suas concorrentes.

De família muito católica, tradicional e conhecidíssima na cidade, a adolescente era a preocupação constante de pais, irmãos e tias. Não por ela, mas pela tentação dos outros, pobres súditos de sua incrível beleza e charme natural. Daí Ana Tereza ser coisa séria: boa estudante, aplicadíssima nos exercícios de piano, presente às missas de domingo.

Namorados? Não. E se o leitor ainda souber o que significa o verbo flertar, o flerte sim, às centenas, deixando um coração esperançoso aqui, uma alma ansiosa ali, uma pobre criatura esquecida acolá. A beleza da moça e sua conduta impecável não a pouparam de um saboroso apelido: Teté. A mesma Teté que haveria de terminar o colegial, cursar Enfermagem e se habilitar a trabalhar no principal hospital particular. Onde conheceu doutor Artur, jovem médico pneumologista, promissor clínico e cirurgião. Com quem se casaria. Se estes fatos houvessem ocorrido no início do século XX, poderíamos dizer que a união teria sido a pá de cal nas pretensões de tantos moços, assim como o final da inveja e desassossego de tantas moças. Mas não, estamos falando de uma época que beirava o início do terceiro milênio, época em que nunca alguém se dá por derrotado em quaisquer situações. Sempre há uma esperança. É isto: o terceiro milênio veio para indicar que todo mal ou princípio de fim pressupõe um relativo bem e início de nova era.
Com base no materialismo. Com certeza por causa disso Teté, casada, tornou-se mais preciosa, mais linda, mais desejada, mais encantadora. E se levarmos em consideração que dr. Artur era rapaz de natureza calma, pacata, conformista, o terreno das investidas tornava-se cada vez mais visitado, mais invadido.

Teté ainda freqüentava danceterias. Mas se antes as baladas tinham alma, calor, arte e ginga, agora eram insípidas, sem composições ou arranjos musicais que levassem os presentes a um estado de glamour próprio dos anos 70/80. Surge-lhe nova consciência: não eram apenas os bailes que se tornavam insípidos, mas o seu próprio cotidiano.

Morre-lhe o pai. Os irmãos residindo muito longe, sobra-lhe a tarefa de cuidar da mãe. E cuidar da casa, do marido, dos dois filhos, do emprego, da empregada, do cardápio, da conta bancária, do movimento financeiro do lar... Em dado momento, Teté viu-se num emaranhado de tarefas que não lhe permitia um único lazer sequer, mesmo porque se surgisse a oportunidade, estava cansada e preferia dormir. Gradualmente a qualidade do cardápio caiu, a atenção aos filhos já adolescentes despencava, e o cuidado e amor à mãezinha desprotegida iam sendo substituídos por um irrefreável sentimento de injustiça e quase raiva. Deus que a perdoe. Refiro-me à Teté, é claro, que sentia a inabilidade do marido em lidar com uma ex-deusa, sua esposa...

Mais um tiquinho de tempo e lhe bateu remorso, daqueles doídos, que fazem a gente pensar em coisas idiotas como “esta é a parte que me cabe, vou cumpri-la com honra”.

Quando se chega ao final da meia idade, a criatura humana, cansada das aventuras e desiludida diante da juventude já ida, retorna hipocritamente à religião... Eis Teté de volta às missas dominicais. Principiou por elencar o que julgava seus principais e medonhos erros: tratar mal a mãe idosa, desconsiderar desconfortos do marido, praticar a traição virtual via facebook (que belo duplo sentido, hein? “Traição virtual”) etc., etc. Foi à igreja, sozinha. Procurou o ícone da santa de sua predileção. Persignou-se, ajoelhou-se e principiou por uma promessa: parar de uma vez por todas com as tais correspondências pelo computador. Cumpriu. Sentiu-se um tiquinho aliviada. Voltou à santa: fez outra promessa: suportaria com resignação e amor o débil estado de sua mãe e sua responsabilidade em cuidar dela. Cumpriu. Bem, deixo ao leitor agora imaginar as promessas feitas por dona Ana Tereza à santa. Foram ao todo vinte e três promessas. Todas cumpridas. Virou santa a mulher. E se déssemos nome a esta santa, chamá-la-íamos
de Santa Sufocada.

Tornou-se triste, amargurada, envelhecida, esquecida por não ter entendido uma outra regra do terceiro milênio: não somos anjos!

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Narrando esse caso a um amigo psiquiatra, ele me escutou atentamente, em silêncio. Quando concluí “não sermos anjos e termos de viver em harmonia com o meio, senão sufocaremos nossa parte humana”, ele levantou os ombros, abriu os braços com as palmas das mãos abertas para cima e disse: “Entãããooo, meu amigo, então: um pouquinho de razão não faz mal a ninguém! O mito das religiões tem sufocado muita gente.”

Começou a me explicar algo sobre ser agnóstico, não propriamente um ateu... Mas eu já havia me levantado e tomado outro rumo... Na rua e na vida!

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