A bicicleta verde

Por: Chiachiri Filho

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Tive também uma bicicleta. Era verde e os seus pneus circundados por uma faixa branca . Revesti o selim com uma capa alcochoada com o símbolo do Corinthians e coloquei uma campainha no guidão direito para alertar os transeuntes. Custei a ganhá-la. Meu pai opunha-se pelos perigos que ela podia representar. Ramon, um dos funcionários do seu jornal, havia quebrado a clavícula num tombo que levou logo no início do descidão da Rua General Teles. O tombo retardou o meu presente. Porém, enquanto Ramon recuperava-se de sua quebradura, eu treinava às escondidas na sua bicicleta Philips, que permanecia encostada num dos corredores do prédio. A bicicleta era de adulto e o selim alto. Portanto, para pedalá-la , tinha de enfiar as pernas pelo meio do quadro e equilibrar-me de esguelho. Foi difícil, mas não deixou de ser um bom treinamento.

De tanto insistir, ganhei a minha bicicleta. Havia várias marcas como a Monark, a Calói, a Philips, a Gorila. O lançamento da Gorila, em Franca, foi precedido de uma ampla campanha publicitária da Casa Higino Caleiro. Tanto quanto me lembro, a campanha publicitária dizia:

“O Higinote vai colocar uma geladeira Clímax em cada lar e uma bicicleta Gorila nas mãos de cada trabalhador francano.”

Meu pai comprou-me uma Mercksuisse. Era pesadona, mas muito resistente. Aguentava bem o meu peso e as minhas andanças. A cada volta, eu a limpava e lubrificava : tinha com ela o maior cuidado. Ela podia me levar a todos os cantos da cidade. Seria minha condução para o Colégio. Nas paradas de 7 de Setembro, entrelaçava os seus aros com uma fita verde-amarela e desfilava com todo prazer e garbo.

Um acontecimento desagradável verificou-se logo na primeira vez em que fui de bicicleta para o Colégio. No início da descida da Avenida Champagnat, pedalei mais forte para pegar velocidade. A velocidade veio fácil , mas, na hora em que precisei dos breques para controlá-la, eles falharam totalmente e a bicicleta rolou forte pela ladeira abaixo. Os paralelepípedos terminavam alguns metros após a entrada principal do Colégio. Preocupado, eu via a rápida aproximação da pinguela que atravessava o córrego do Cubatão. Para evitar o córrego, o mato e a pinguela, eu , decididamente, virei na entrada principal do Colégio. Consegui virar e parecia que tudo estava dando certo quando uma areia no asfalto fez com que a bicicleta derrapasse , batesse na guia do jardim e me atirasse para o ar. A sorte foi que caí num gramado e somente machuquei um tornozelo. Ao levantar-me , pude ouvir do alto das escadarias do Colégio uma voz autoritária e irritante:

—O Sr. está proibido de vir de bicicleta para o Colégio durante os próximos 15 dias!

Era a punição que o Reitor , o Irmão José Francisco ( também conhecido como Barba Azul ) aplicava-me.

Depois dos 15 dias, eu continuei indo para o Colégio montado em minha Mercksuisse sem sofrer qualquer tipo de acidente. Dela usei e abusei até enjoar. Sem dúvida, foi um dos melhores presentes que recebi.

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