Suspensórios

Por: Mauro Ferreira

Porque será que sumiram os suspensórios? Num dia que estava especialmente à toa, li numa daquelas colunas de bobagens que enchem as páginas dos jornais, que uma das últimas compras do ator Paulo César Péreio, uma figura bastante original no show business brasileiro, tinha sido um suspensório novo. Estranhei o Péreio usando um suspensório, afinal quase ninguém mais usa, que me lembre, apenas o deputado Delfim Netto. Eu mesmo tenho uma foto dos anos 50, menino ainda de calças curtas com um belo suspensório. Mas depois daquele, nunca mais tive outro.

Dizem que é a ditadura da moda que impõe mudanças e facilidades nos trajes. O chapéu, por exemplo, era obrigatório antigamente. É só ver as fotos antigas dos jogos da Francana ou no Pacaembu, todo mundo na arquibancada estava de chapéu, a Prada e a Ramenzoni faturavam alto. O paletó e a gravata no cinema, antes indispensáveis, motivo para o porteiro ou o gerente barrar gente na porta com traje inadequado também se foram. Ainda bem que tudo mudou, seria impensável hoje esta exigência.

Tempos atrás, fui ver uma exposição do artista e arquiteto Flávio de Carvalho (já falecido), um verdadeiro iconoclasta e modernista de primeira hora. Lá estavam recortes dos jornais paulistanos de 1931, contando a ocasião quando ele quase foi linchado. Motivo? Ele fez provavelmente o primeiro happening artístico brasileiro, quis testar o que aconteceria fazendo uma espécie de desafio à massa. Resolveu caminhar na contramão da procissão de Corpus Christi em São Paulo e, ousadia maior, usando um chapéu. Os participantes da procissão esqueceram as lições de Cristo e partiram para linchar o artista, que teve que se esconder nos fundos de um café, onde foi salvo pela polícia. A nota do jornal não cita o uso de suspensórios.

Depois, em 1954, Flávio de Carvalho, já um artista e arquiteto famoso, inventou um traje masculino para os países tropicais, uma espécie de saia para homens e uns suspensórios esquisitos, que evidentemente não colou, ninguém quis saber (de vez em quando o Caetano e o Gil aparecem de saia em eventos, mas é só). As fotos dele circulando pelo centro bancário e histórico de São Paulo com aquelas roupas são impagáveis.

Os britânicos, que de bobos não têm nada, houveram por bem difundir aquelas bermudas que usavam em suas colônias na África e na Índia, lugares bem mais quentes que sua ilhota européia, onde o céu está sempre nublado e o frio abunda. É um horror aquele cinzento permanente, embora existam imortais e biógrafos sem serviço que sonhem com uma temporada eterna nos ditos países ricos, bem longe da brava gente tropical. Prefiro as bermudas aos suspensórios, chapéus e gravatas.

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