O canarinho, a máquina e eu

Por: Maria Luiza Salomão

Ciclicamente, lavo um balaio razoável de roupas íntimas do casal e dos filhos que moram na Capital (eles não têm tanque, muito menos varal, no ap(e)rtamento em que moram).

Eu me ponho a fazer o serviço com ternura, sem dureza no coração. Aprendizado sutil e profundo, a serviço da família. Toda ação (gesto ou pensamento, sentimento) pode (e merece) ser ocasião de fruição e crescimento mental, físico e espiritual.

Depois de esfregar, deixar de molho as roupinhas, eu ponho a máquina a funcionar, as roupas são centrifugadas e as tenho secas e cheirosas. Enquanto a máquina funciona, escuto o trinado do meu canarim.

Ele parece responder ao que deve lhe parecer o canto da máquina de lavar roupas, aumentando a intensidade e o belo desenho do seu canto. Eu vou cá esfregando as roupas, na dança ritmada de mãos e braços, a máquina a girar o seu tambor entoando batuques e o canarim a melodiar.

O mundo inteiro parece se juntar nesta hora, em roda-momento, continuada e rítmica ciranda. Animada e inanimadamente.

Sou máquina, mulher e pássaro. Eu canto/ batuco/danço.

O aroma que nos circunda é o de alma lavada.

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras