Deus e Machado

Por: Silvana Bombicino Damian

De tempos em tempos eu volto para ele. Vou até a estante, escolho um volume, abro e entro. Eu não saberia dizer ao certo o porquê, mas a leitura daquelas páginas alimenta minha fome e sacia minha sede de algo que comida e bebida alguma jamais o farão. Entro silenciosamente no imutável universo de Machado de Assis, Rio do século XIX. Frequento os saraus, percorro as ruas da Carioca e da Glória, das Mangueiras e da Velha Guarda, entro no austero casarão, vou até o vão da janela e olho o imenso quintal de árvores frutíferas...lá atrás o Pão de açúcar. Fico ali,ora tomando chá junto às Marianas e Joaninhas, Adelaides e Quintílias, ora entre os graves senhores de suíças e pincenez, Evaristos e Fortunatos, discutindo política ou outro assunto de igual monta e seriedade, entre uma taça de xerez e outra..

O que nos faz amar mais um escritor que outro? Talvez sua visão de mundo, seu olhar único e pessoal sobre coisas e gentes e sua capacidade de devolver ao leitor suas impressões, suas verdades ou a falta delas.

Dia desses assisti no canal Discovery um documentário onde o grande cientista Stephen Hawking, entre teorias, leis da Física e descobertas Einsteinianas, concluiu que antes do Big Bang não existia o Tempo. Se não existia o Tempo não poderia haver Deus. Tudo surgiu a partir do Big Bang. Pediu educadamente desculpas aos expectadores religiosos, mas o Universo poderia, cientificamente falando, dispensar um criador divino.

Mas o que eu queria mesmo saber é se Capitu traiu Bentinho!

Pena não sermos nós tão simples e compreensíveis como a criação do Universo, com ou sem Big Bang. Nossa intangível profundidade e indelével superficialidade nos faz ser exatamente isso o que somos, infinitas possibilidades de Ser. Ou não.

Como os personagens de Machado, criaturas à altura de seu Criador.

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