Poesia na sala de aula

Por: Sônia Machiavelli

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Minha passagem pelo magistério foi curta. Fiquei apenas dez anos lecionando. Depois, deixei as escolas, fiz opção pelo jornalismo. Mas o prazer de trabalhar com crianças nunca me abandonou. Olhando para trás, vejo como sempre procurei algum contato com elas, seja recebendo-as no prédio da Ouvidor Freire e explicando de forma didática o fazer jornalístico, seja criando concursos para premiar bons textos, seja editando um caderno infantil e, ultimamente, compondo com professores e jornalistas o projeto Jornal na sala de aula, que tem supervisão de Maria Ângela Freitas Chiachiri e Lívia Inácio.

Também desenvolvo há dois anos, com outros voluntários, alguns deles funcionários do GCN, trabalho educativo no Veredas, uma ONG mantida pela empresa. Tenho uma classe de alunos cuja faixa etária varia dos 9 aos 12 anos. Duas vezes por semana lemos histórias, interpretamos textos, estudamos as estruturas da Língua Portuguesa, fazemos exercícios orais e escritos, conversamos sobre assuntos diversos, alguns curiosos, outros sérios, todos dignos de muita consideração. O grupo gosta de poesia. Ano passado os participantes leram o livro do Paulo Gimenes, analisaram os poemas, decoraram e declamaram alguns na festa de encerramento do ano letivo. Antes, haviam recebido o escritor para entrevista.

Então, nem deveria ficar surpresa com o que aconteceu na última semana, quando vieram me perguntar sobre os sacos de papel que estavam chegando em suas casas, embalando pães e estampando poemas. Expliquei que era projeto da escritora Perpétua Amorim, que havia entrado em contato com o idealizador, o poeta mineiro Diovani Mendonça, trazendo para Franca a ideia. A prefeitura apoiou, o Instituto Praxis também, a artista Maria Aparecida Motta se ofereceu para ilustrar o papel, poetas francanos responderam sim ao convite de Perpétua e enviaram seus poemas. Então, ali estavam os 15 mil sacos de pão distribuídos por trinta padarias, chegando às casas dos francanos que enquanto comiam seu pão matinal e tomavam seu café, iam lendo os poemas de Regina Helena Bastianini, Maria Luiza Salomão, Eduardo de Paula Nascimento, Luiz Cruz de Oliveira, Cirlene de Pádua Teixeira, Walter Peres Chimello, Perpétua Amorim e desta que aqui escreve. Quereriam eles ler os poemas em classe? Queriam.

No dia aprazado fizemos um círculo coms as cadeiras e começamos a leitura. Cada criança era convidada a ler um poema. Depois eu abria janelas para perguntas. Poucas dúvidas, a maioria ligada à sinonímia. Compreendido o texto, deixei que cada um falasse sobre seus sentimentos diante das palavras, das imagens, da sonoridade dos poemas. Todas as reações foram admiráveis, em se tratando da pouca idade deles. Luana Costa disse a respeito de Ninho de Pérolas que “ o sofrimento faz a gente mudar, ficar diferente, às vezes ninguém vê a dor do outro mas é assim a vida”. Leonardo Cardoso Silva entendeu que a autonomia sugerida por Liberdade nada tem a ver com posses, muito menos com dinheiro. Letícia Felipe Tertuliano comparou Cantata com uma música do cancioneiro sertanejo e traduziu a mensagem no seu registro amoroso. Rafaela Fernanda viu no soneto Revezes um convite a “continuar lutando, a não desistir quando as coisas ficam difíceis”. Jaqueline Gomes falou que Geraislidade é um retrato da vida de seus avós que moram em uma cidade distante, na área rural, e “ vivem desse jeitinho, tem até o banquinho.” Pecado Capital despertou muitos comentários até que todos concluíssem que “o menino que caiu do cavalo de pau mora sempre dentro da gente, mesmo quando a gente vira adulto.” Do meu Varal palpitaram que o tecido pode ser o da alma e a farpa qualquer sofrimento. Transubstanciação, apesar do título erudito, foi sentido do jeito que faria a autora se comover: “ São os homens trabalhando duro para depois comer o alimento sentados ao redor da mesa e com amizade”

Muito estimulantes, comoventes e gratificantes para todos os envolvidos neste bonito e importante projeto foram as palavras de Marcos Nitheli Silva Alvarenga , o caçula da turma, nove anos e muita sensibilidade. Leiam o que disse ao final desta aula: “Eu estou pensando que o saco de papel é bom porque não é de plástico e não vai poluir o ambiente. Mas também que é pena porque se ele acaba logo, as poesias somem.. Quer dizer, não somem não porque a gente já sabe elas, já sentiu e guardou’.

Mais não disse nem seria preciso lhe perguntar. Aprendeu em 50 minutos que poesia é sentimento e, se encontra guarida no coração, ali fica pra sempre.


PRIMEIRA EDIÇÃO

Simples e sugestiva

A ideia de imprimir poemas em sacos de pão nasceu em Belo Horizonte, no coração do poeta Diovani Mendonça. Sua intenção era levar poesia ao maior número possível de leitores. A poeta de Franca Perpétua Amorim conheceu ambos - o poeta mineiro e o projeto. Encantou-se pela possibilidade de levar a todos os cantos da cidade versos de autores francanos. Havia o desejo. E muitos empecilhos no caminho. Mineiramente Perpétua foi aos poucos removendo os entraves, até tornar o percurso possível.

Contando com o apoio da FEAC, do Instituto Práxis de Educação e Cultura, do próprio Diovani Mendonça, da artista plástica Maria Aparecida Motta e da “ parceira de sonhos” Aretha Amorim Bellini , Perpétua conseguiu colocar em trinta padarias de Franca quinze mil embalagens que trazem poemas de Regina Helena Bastianini (Transubstanciação); Maria Luiza Lana Mattos Salomão (Ninho de Pérolas) ; Eduardo de Paula Nascimento(Revezes); Walter Peres Chimello (Liberdade); Cirlene de Pádua Teixeira (Cantata); Luiz Cruz de Oliveira(Pecado Capital); Perpétua Amorim (Geraislidade) e da autora dessas linhas (Varal).

Com o entusiasmo com que o projeto foi acolhido pelo público, é de se esperar que no próximo ano tenhamos outra edição. A primeira esgotou-se.

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