Meus mosqueteiros

Por: Luiz Cruz de Oliveira

Os avós eram empregados da Dona Mariúcha e pediram a ela. A mulher pediu ao senhor Pinheirinho, gerente da empresa, ele arranjou emprego para o neto.

O menino começou, aos dez anos de idade, a varrer e encerar chão, a passar escovão, a lavar banheiros e calçadas. Era esperto, foi promovido. Passou a servir café, a fazer entregas em domicílios de fregueses. Humildade e ligeireza levaram-no ao escritório da firma. Aproximava-se, então, dos quinze anos de idade. Foi trabalhar sob as ordens de Alberto Eliezer e junto das pessoas mais importantes da firma: Herval Marconi, Rubens Vasconcelos, Mauro Francisco, Hernani Constantino, Francisco Sichieroli, Alfredo Sampaio...

No escritório, era um faz-tudo. Servia café, levava recados, saía a comprar cigarros para os homens, lanches para as mulheres. Depois veio trabalho de responsabilidade.

- Vai lá no banco, entrega essa duplicata e esse cheque para o Fulano. Espera o recibo do caixa.

O caixa do Banco do Brasil era o Carlos Teodoro que fazia brincadeira.

- Jacintho...

Eu corria à boca do caixa, ele terminava a frase.

- Já sinto... que está saindo. Espere mais um pouco.

Funcionários e clientes riam de minha ingenuidade, eu aprendia: Jacintho Caleiro era o nome real da firma; Casa Higino Caleiro era nome fantasia.

Mas aprendia mesmo, aprendia vida era com o Herval, com o Rubens, com o Mauro. Eu já lera Alexandre Dumas e, para mim, os três rapazes todos na casa dos vinte e cinco, trinta anos encarnavam o espírito dos mosqueteiros, cada qual com característica marcante. Mauro era extremamente caprichoso, sua letra bonita escorrendo pelo Livro Caixa, pelo Livro Razão. Rubens tinha espírito um tanto irrequieto e Herval era o irreverente dos três.

Era o ano de 1955, a cidade, muito acanhada, oferecia poucas alternativas de lazer. Restringiam-se elas a futebol no Estádio Coronel Nhô Chico, a bailes semanais na Associação dos Empregados no Comércio e a cinema. Por isso, aqueles rapazes não escondiam que, pelo menos duas vezes por semana, iam lá para a Rua Minas Gerais, então uma das mais famosas da cidade, freqüentada pela juventude boêmia. Asseveravam que só iam beber cerveja e conversar com a Vera (amiga dos três) e suas companheiras combatentes. Lá, de vez em quando, entusiasmado, o Herval declamava poesia para as mulheres e sua clientela.

Essas aventuras, enriquecidas por minha imaginação mexeram com minha adolescência. Ouvia pedaços de narrativas, especulava e especulava, pedia, insistia, o Herval declamava versos de Tercetos, de Olavo Bilac. Só fui saber, muitos anos depois, que o poema era longo, não se restringia aos versos que eu fazia força para decorar.

Noite ainda quando ela me pedia

Entre dois beijos que me fosse embora...

Nessa época, chegou novo funcionário ao escritório Lineu Vasconcelos Lemos, irmão do Rubens, e recém-saído do seminário, onde estudara por mais de dez anos. Meus mosqueteiros não perderam tempo e engrossaram o seu grupo. Com a desculpa de que Lineu desconhecia a vida mundana, de que precisava adaptar-se logo ao mundo cá de fora, arrastavam o rapaz lá para a Rua Minas Gerais.

Lineu passou a lecionar no Instituto de Educação Torquato Caleiro, onde fui seu aluno de Francês. Graças ao professor, até hoje sei alguma coisa do romantismo francês, sei decorado trecho de tradução de Chateaubriand:

... que me lembravam que em todos os lugares, o canto natural do homem é triste, mesmo que ele exprima alegria...


Aprendi muito com Lineu.

Lembro-me de passagem marcante. A Faculdade de Direito de Franca realizaria seu primeiro vestibular. Os pretendentes a uma vaga no curso estudavam feito doidos, em grupos ou individualmente, enquanto Lineu saía à noite, ia assistir a filmes no Cine São Luiz.

Os postulantes ao curso se espantavam.

- Você não vai ingressar na Faculdade, Lineu.

- Vou, sim. Vocês estão estudando há dois meses. Eu estudei durante doze anos.

Foi aprovado em primeiro lugar.

Tive o privilégio de reencontrar Lineu no Banco do Brasil, onde ele foi meu chefe e nos tornamos amigos.

Lineu apresentou meu livro Vida Só, lançado na cantina do banco. Sua fala foi só uma lição de vida a mais, entre as numerosas que me deu.

O tempo tem sido jato a levar inclusive lembranças. Levou quase todos os amigos. Da época dos meus mosqueteiros, sobraram Mauro, em quem esbarro com freqüência, e Lineu, sumido na capital mineira.

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