Hermenêuticas

Por: Mauro Ferreira

Segundo o dicionário, a hermenêutica é um ramo da filosofia e estuda a teoria da interpretação. Mas a gente usava o termo com outro significado nos idos de 60, durante as aulas de português do professor Assuero Quadri Prestes no curso científico do IETC. Ao menos uma vez por semana, ele fazia uma chamada oral, perguntando sobre o uso do objeto direto, advérbio de lugar e coisas do gênero. Confesso que não lembro mais nada disso, se alguém me perguntar o que quer dizer gerúndio ou sujeito oculto, eu não sei mais o que significa. Mesmo assim, escrevo, sabe-se lá como. Certamente mal, para os linguistas, puristas e cruzmaltinos ortodoxos.

O fato é que o professor Assuero metia mais medo com suas “batidas” incertas que o prefeito nas bilheterias da rodoviária. No dia da chamada oral, ele entrava na sala de aula com cara de poucos amigos carregando um enorme pacote de livros e começava um ditado já da porta da sala. O Hermenegildo de Paula, um colega que veio transferido do Champagnat, sentava numa das primeiras carteiras, embora fosse um dos maiores da classe em tamanho. Ele era nosso herói, pois assim que o Assuero entrava, ele começava a puxar assunto sobre os tempos que o professor tinha vivido em Pirassununga.

Era a senha para mudar o rumo da prosa. O Assuero interrompia o ditado, respondia alguma coisa para o Menê, que insistia, até que ele entrava na onda e não havia tempo para a temida chamada oral, a conversa enveredava por outros temas, agricultura, cultura, literatura, história e coisas da vida, até mesmo português. O divertido Menê, que logicamente virou professor, era mestre na arte de conversar e contar histórias, as hermenêuticas do título.

Dia destes, reencontrei-o no estacionamento do Gersinho Verzola (que tem o serviço que eu queria, o dia todo de bermudas). Menê continua como professor, cativando com suas histórias engraçadas, como a do irmão Collibava, que foi seu professor no colégio Champagnat, ao tempo dos maristas.

Esse irmão era muito severo no trato com os alunos, chegava a pegar giz no bolso para atirá-lo nos alunos que conversavam no fundo da classe. Na classe do Menê, havia encapetados de toda ordem. Collibava usava um surrado avental, que pendurava na cadeira enquanto escrevia na lousa. Certo dia, no intervalo das aulas, saiu para um lanche e um dos pequenos demônios encheu o bolso do seu avental com estrume seco de cavalo.

Logo que voltou do café, ao retomar a aula, a algazarra no fundo da sala era enorme, a expectativa eriçava ainda mais os estudantes. Assim que resolveu pegar um giz para jogar nos mais falantes, Collibava encheu a mão de estrume e olhou-a estupefato, “puseram estrume no meu bolso”, com seu forte sotaque. Foi uma gargalhada só e uma suspensão generalizada para a classe. Entre eles, logicamente, estava o Menê. Pensando bem, ele poderia ser contratado pela Viação Cometa como relações públicas.

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras