Domingo

Por: José Borges da Silva

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Infiltrando por uma fresta da janela de madeira, uma réstia de sol suavemente iluminava-lhe o rosto. O calorzinho, agradável no início, foi aumentando e, incômodo, entrou no roteiro do sonho, transformando-se no hálito quente do chefe de seção da fábrica a sussurrar-lhe aos ouvidos: “Não demora, Zé! Se não vai atrasar todo mundo...” Acordou assustado com a frase que ecoava nos seus ouvidos desde a sexta-feira. Ficou assombrado quando percebeu o Sol penetrando no quarto. ‘Deus do céu, que horas são?’ - bradou saltando da cama. Aflito, procurava pelas roupas que não estavam no lugar de costume, quando notou o par de chuteiras ao lado da cama. Só então pôs ordem nos pensamentos e se lembrou de que era domingo. Ainda trêmulo, foi até ao tanque de lavar roupas, assentado numa varandinha miúda aos fundos da casa, lavou o rosto, escovou os dentes, molhou os cabelos. O tremor passou, mas restava ainda um cansaço profundo, resultado da luta que travara com a esteira da linha de montagem de calçados, desta vez em pesadelo. Trocou de roupas, calçou meias e chuteiras, montou a bicicleta e saiu calmamente, comendo uma ponta de pão encharcada de café. Distanciando-se do pesadelo o pensamento vagueava pela tarde, quando o seu time do coração estaria em campo e, com ele, Pelé. Pensava na similitude de sensações que lhe proporcionavam os finais de tarde de domingo e o já anunciado fim da carreira do rei Pelé. Eram como que o prelúdio de um vazio de liberdade, de magia, de alegria... Ainda a meio quarteirão do campo, percebeu que o técnico acenava em sua direção, abrindo os braços, cobrando-lhe pressa. Aumentou o ritmo das pedaladas. Desta vez a cobrança não agoniava, não oprimia, mas, ao contrário, proporcionava-lhe orgulho, certo prazer. Ao se aproximar o homem atirou-lhe uma camisa preta de mangas longas: “Preciso de você no gol dos aspirantes!” Era meia-esquerda do time principal, e ainda gozava do prestígio de substituir o goleiro do time aspirante se este não aparecia.

Quando o time titular entrou em campo o treinador o chamou de lado: “hoje, quero você mais à frente. O empate não interessa. Você vai partir pra cima deles...” Aos vinte minutos recebeu a bola próximo da intermediária adversária. Estava no seu elemento. Não era apenas mais um. Ali era considerado, era respeitado, usava a camisa 10. Sentia-se forte, em plenitude física e mental. Olhou para o gol adversário e concluiu: “É agora!” À frente havia o volante adversário que se aproximava rapidamente. Mais adiante, dois zagueiros, um de cada lado, e o goleiro ao fundo. Mas, estando em plenitude, achou graça no desafio. E partiu. Tocou a bola levemente com o lado interno do pé direito como se fosse fugir para a esquerda e a deixou rolar, quase desprotegida. Era a isca... Ainda a meio caminho interceptou-a com o pé esquerdo e, velozmente, volveu-a para a direita e, novamente com o destro, impulsionou-a para frente. O marcador, que se movera descuidado para interceptar a investida à esquerda, ficou no meio do caminho, estático. E já não era mais adversário. Restavam os dois zagueiros, que de pronto lhe fecharam a passagem. Mas, antes que o alcançassem, ergueu a bola com a ponta do pé esquerdo por sobre os dois e deu a volta pelas costas de um deles, surpreendendo a ambos. O goleiro, percebendo a manobra, adiantou-se rápido, com os braços e pernas estendidos, tentando se mostrar obstáculo maior. Mas como não mais pretendia seguir, fez apenas a bola rolar por entre as pernas do arqueiro É gol! Gooooooool! Foi o grito que ouviu em coro estridente vindo das margens do campo. Não havia grande torcida lá fora. Mas era como se houvesse. Técnico e amigos pulavam e gritavam o seu nome. De seu lado, saltando e socando o ar à maneira de Pelé, correu, em êxtase, na direção dos súditos amigos. Naturalmente, pilhando-se livre, achando-se pleno, sentindo-se rei. Afinal, era domingo... E de manhã ainda!

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