Entre graças e culpas

Por: Jane Mahalem do Amaral

“Entre Tapas e Beijos” é o nome da série de TV que, a despeito da boa atuação das atrizes e atores, apenas brinca com os conflitos gerados pelos mal-entendidos nos relacionamentos, sobretudo, amorosos. Creio, mesmo, que passamos grande parte de nossa vida entre muitos tapas e poucos beijos.

Vivemos atrás de resolver problemas e quase sempre são eles insolúveis ou seus desfechos são incompreensíveis. Isso, porém, não nos desanima, pois se assim o fosse desistiríamos de viver. A busca de soluções funciona como uma força motriz capaz de acionar diferentes possibilidades e múltiplas escolhas. O mistério da vida está sempre presente e ele assombra, mas também encanta.

Carregamos pela vida muitos silêncios guardados, perguntas não respondidas. As perguntas sempre caminham inconscientes por que não sabem elas que o que buscam é o Sagrado. Mas a sede de infinito dorme na horizontal e enquanto não me verticalizo não consigo caminhar. Muitas vezes, percebo que vozes iludidas, perdidas e desgostosas fazem barulho incessante. A mente pergunta e essas vozes têm respostas superficiais. E então saio a caminhar sem rumo certo e, por seguir falsos sons, vou construindo culpas. Às vezes, porém, no silêncio, ouço a ternura, a doçura, a gentileza, e a aceitação... Então o sutil se manifesta. E a graça acontece. Verticalizo-me. Um novo fôlego inspira o começo. Esqueço as palavras. O momento é de sentir-me pertencido e pertencendo.

Se caminharmos pela vida “entre tapas e beijos” é porque, na verdade, não escolhemos isso. Vamos, simplesmente, saindo do tapa para o beijo e novamente do beijo para o tapa, sem nenhuma consciência. Somos levados pelo fluxo que vai edificando desentendimentos, raiva e mágoas, como tão bem mostra a série da TV. Lá, o objetivo é fazer rir das incapacidades humanas. E nem sempre, na vida real, isso vem regado de bom humor. No entanto, podemos escolher caminhar na Graça, sem contudo, nos livrarmos das culpas. São elas a lembrança do que não deveria ter sido feito ou daquilo que eu poderia ter modificado e não o fiz. Elas são a consciência para o novo passo. Entre graças e culpas podemos sair da horizontalidade, olhar o sim e o não e enxergar a nova possibilidade.

O coração quando pergunta só quer saber a verdade. Descubro o Absoluto, exatamente no momento em que me conheço... E só me conheço na marcha, no caminho...

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