O despertar do silêncio

Por: Hélio França

A vida nos contempla com um sentido mais abrangente e profundo quando envolvida por fatores capazes de restaurar o equilíbrio entre a razão e a emoção. Fatores estes que não são encontrados no caótico trânsito urbano à espera do sinal que vai abrir, muito menos na corrida desenfreada das pessoas por ascensão social, pouco se importando com a moralidade dos próprios atos para atingir metas.

Esta cegueira humana vem sendo hidratada por um materialismo insosso e um consumismo ridículo que atropela os verdadeiros valores e sentimentos das pessoas. E com o desejável aumento da expectativa de vida para setenta anos, parece que até a medicina caminha na contramão, quando nos oferece tal “ prorrogação “. Afinal, o que desejamos não são mais dias, e sim melhores dias. O que seriam os melhores dias, senão aqueles vivenciados com absoluta certeza de ter consciência da emoção e da beleza enquanto estamos nesta passagem privilegiada de tempo ?

Particularmente, ouço melhor a vida no silêncio. Gosto especialmente do instante em que a noite já não é mais noite, e o dia ainda não é dia. É a madrugada, momento único para se caminhar aspirando o ar fresco com cheiro de orvalho e ouvindo os próprios passos pisando o chão, sem pressa. De quando em quando, apenas um canto de galo fazendo cócegas na paz do momento. Dirijo o olhar para cima e fotografo um veludo azul escuro, quase negro, salpicado de luzinhas brilhantes, umas mais outras menos, compondo infinitas reticências, inexplicáveis aos olhos , mas compreensíveis para a alma. Ouço o que me diz o silêncio, abstenho-me da intolerância, da maldade, da hipocrisia, das normas e religiões. Tenho a sensação de que flutuo, embora sinta os pés tocando suavemente o solo, passos cadenciados, dirigidos pelo êxtase do instante mágico em que a noite já não é noite, e o dia ainda não é dia ...

Pouco mais de cinco horas da madrugada, a rua, as casas, as árvores, todas ali ao meu redor quietas, ninguém diz nada e nos compreendemos perfeitamente. Há uma lua pálida, brilhante, recortada pela sombra do nosso planeta, o que a torna convexa e misteriosa, com aparência de lua das mil e uma noites. Relembro o poeta Josaphat : “ Lua de Franca tem dó de mim/lua de Franca tem compaixão/eu nunca tive um brinquedo assim/ joga uma estrela na minha mão “!

Mas a rua em que caminho com a brisa a acariciar meu rosto não é de Franca, é de Cristais. E a lua que admiro não é nem desta ou daquela cidade, é a de todas as cidades e pessoas que a desejam. Ela se deixa envolver por todos os amantes da carne e do espírito, porém, apenas neste instante, único e silencioso, em que a noite já não é noite, mas esconde os sonhos; e o dia ainda não é dia, mas ilumina os segredos !

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras