Mistério insondável

Por: Mauro Ferreira

Muitos anos atrás, o maestro Barros Garboggini foi almoçar em minha casa levado por minha cunhada Regina. Com seu entusiasmo, que o levou a reger uma orquestra numa cidade do interior onde arte é a última das prioridades, ele tentou iluminar minha ignorância sobre o mistério da música e sua relação com a arquitetura: o ritmo, que está presente na música e nos pilares do Alvorada ou do Partenon, os cheios e vazios das fachadas e das partituras, o som que ocupa todo o espaço arquitetônico de um edifício.

Pouco adiantou sua aula, para mim a música continuou um mistério insondável. Nos tempos de estudante de arquitetura em São Paulo, costumava freqüentar os “Concertos para a Juventude” no Teatro Municipal, invenção do maestro Eleazar de Carvalho. Realizado aos domingos pela manhã, o concerto era gratuito e eu costumava levar a namorada, que era pianista, para ouvir música e convencê-la a tocar artistas dodecafônicos e outras modernidades. Era chique ouvir um Concerto de Brandenburgo, de Bach, depois uma melodia do Burt Bacharach, para não perder o trocadilho.

Roqueiro e admirador dos tropicalistas e do Clube da Esquina, minha cabeça era um salseiro de sons, fazia os projetos e trabalhos escolares ao som de Beatles e do rock progressivo de Pink Floyd e Yes, com seus decibéis avantajados, apesar de nunca conseguir entender solfejos, colcheias e semicolcheias. Bem que tentei, nas aulas de canto orfeônico do ginasial e nas aulas de piano das professoras Célia Polo e Lamis Dau.

Depois do concerto no Municipal, eu saia com a namorada ou com o Osias, meu companheiro de “república”, para almoçar um singelo PF na praça da República e via o maestro Eleazar, tranquilamente, andar com a família até o sofisticado restaurante Rubayat. Insondável mistério, do maestro que controlava dezenas de músicos com um giro da batuta e que sabia se estava na hora da clarineta ou do fagote entrar em cena. E que sabia também comandar todos ao mesmo tempo, para encher catedrais com a beleza de cascatas sonoras, como um riff lancinante da guitarra de George Harrison.

Acho que é por isso que um dos filmes de Fellini que mais gosto é “Ensaio de orquestra”, com a trilha sonora do Enio Morricone (vi no extinto cine Odeon em 1979), quando há uma rebelião dos músicos e uma confusão generalizada traduzida na luta pelo poder e a questão da individualidade de cada um dos músicos sob a ditadura do maestro.

Ante minha absoluta incapacidade musical e curta carreira artística de pianista, relembro o que ficou na memória de uma audição ao vivo que fiz no auditório da rádio Hertz, num sábado à noite. Depois de sobreviver ao fato, fui ao aniversário do meu primo Dionízio. Lá chegando, ainda suando em bicas em roupas de festa, minha prima Dalva concluiu: “você foi bem, só errou uma vez”. Donde concluí que o ouvido dela era ainda pior que o meu.

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