Ação Franca pela Paz

Por: Vanessa Maranha

150094

As novas subjetivações, isto é, os novos modos como o humano busca se singularizar e existir, têm passado pelo desenvolvimento do que já podemos definir como uma narcocultura a cultura em torno das substâncias psicoativas, em termos de consumo abusivo e que tem atingido níveis de epidemia, questão de saúde pública na sociedade contemporânea. Desde a publicidade mercenária à música, passando pela TV, pela desestruturação familiar, o que se tem muito enfaticamente no nosso tempo é a ideia da busca do prazer e a minimização da dor (psíquica) a qualquer custo. Os imperativos de felicidade do mundo contemporâneo tem nos levado a recorrer aos pequenos “nirvanas químicos” que indústrias lícitas ou ilícitas nos oferecem sob a forma de pílulas, pós ou fumos.

Alguns autores associam a drogadição e alcoolismo com o desencanto na pós-modernidade, caracterizada pela queda das ideologias, sem substituição. O psicanalista Joel Birman, em O mal estar na atualidade, diz que “o esvaziamento deste cenário combinado com a angústia de aniquilação provocada pelo desamparo em algum tipo de lei, inclusive a do desejo, reforçam o apelo à sedação, ao silenciamento da dor psíquica - seja pelo uso de drogas, álcool ou psicofármacos”.

Pensando na alarmante quantidade de famílias e jovens devastados pelas bebidas e pelas drogas em Franca, jovens promissores que vão se tornando indigentes e criminosos cada vez mais numerosos nas nossas ruas, seres deformados, capturados pelo vício, sobretudo da cocaína e do crack, criou-se um grupo multidisciplinar de profissionais para dar início, nessa semana, a uma série de ações inicialmente preventivas, no movimento “Ação Franca pela Paz”.

Esse grupo se fez a partir de mobilização interna no Centro Médico de Franca, no ano passado, que passou a se denominar “Fórum Permanente Intersetorial de Discussão sobre Dependência Química em Franca”. Já se reuniram médicos, psicólogos, pedagogos, assistentes sociais, promotores de justiça, comandantes da polícia militar, representantes de comunidades terapêuticas, grupos de ajuda voluntária e do COMAD, representantes das secretarias de Educação e Saúde municipais, membros da universidade, corporações religiosas, entre outros.

A comissão executiva do Fórum é composta pelo promotor da vara da Infância e Juventude Dr.Augusto Soares Arruda Neto; presidente do COMAD Franca Aurélio Luís Silva; representante da Secretaria Estadual da Educação, professor Hugo Tasso; representante da Secretaria Municipal Educação, Marta Basílio e representantes do Centro Médico de Franca Dr. Ricardo Goulart e Dr. Ronaldo Jacintho Mendonça. De acordo com o psiquiatra Ronaldo Jacintho Mendonça, a ideia é “ativar a base da sociedade numa convocação à construção de um senso de responsabilidade social. Estamos particularmente alarmados com adultos que divulgam um sentimento de urgência de prazer em detrimento do senso de realidade; as crianças estão bombardeadas de mensagens irresponsáveis em relação ao consumo do álcool, o que abre portas para a liberação de drogas em geral”. O pontapé inicial, com a realização da “I Semana de Trabalho Coletivo de Prevenção às Drogas” foi o da educação a partir da infância, instigando o questionamento do tema com as comunidades escolares e, então, a proposição de medidas para tratamento e repressão.

Resta aplaudir a iniciativa e disseminar a intervenção, apoiá-la, em busca de soluções para estas e para as próximas gerações que virão, potencialmente ameaçadas pela tragédia social que deriva do abuso das substâncias químicas.

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras