Oswáld, ‘o culpado de tudo’

Por: Sônia Machiavelli

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Depois de ter visto as exposições temporárias de Guimarães Rosa, Machado de Assis, Clarice Lispector, Cora Coralina e Fernando Pessoa ao longo dos últimos anos, não poderia perder a de Oswald de Andrade, o culpado de tudo do título, referência à sua inequívoca participação autoral para que se mudasse, no começo do século passado, o caminho até então trilhado pelas artes no Brasil. Estive há quinze dias no Museu da Língua Portuguesa para entender de que forma os idealizadores da montagem haviam trabalhado vida e obra de artista tão complexo, surpreendente e seminal na gênese e exegese do que viria a ser o chamado Movimento Modernista.

A atual exposição parece ter acertado em cheio na correlação forma/fundo, estabelecida a partir dos princípios formais que encontramos no Manifesto Pau-Brasil : equilíbrio, agilidade, síntese, invenção e surpresa. A partir desse fio condutor, foram criados três movimentos de leitura: o poético, o biográfico, o filosófico. Usei a palavra movimento, depois de deletar a primeira que havia escrito, segmento, e na falta de outra para explicar que no caso não podemos conceber a estrutura como soma de partes fixas e sim como expressões dinâmicas. Daí a originalidade e beleza dessa exposição que parece pulsar.

A frase que é um emblema do antropofagismo aparece em letras garrafais na faixa que chama a atenção na entrada principal do prédio da Luz, à vista dos que passam pela calçada: “Direito de ser traduzido, reproduzido e deformado em todas as línguas”. Ela prepara o espírito para o que se vai ver dentro do prédio a respeito deste escritor que foi o tempo todo parceiro das artes visuais. Pioneiro na tendência irrefreável nos anos seguintes, e persistente até hoje, dialogou com a fotografia, o cinema e o antecessor do outdoor, o cartaz publicitário.

Considerando que toda exposição necessita de um roteiro para nortear o visitante, o curador José Miguel Wisnik optou por estabelecer um caminho que cobrisse todos os períodos da vida exuberante do escritor. O visitante de início defronta-se com painéis ilustrados com textos e desenhos do poema As Quatro Gares (1927), que levam o olhar a viajar pelas fases da vida de Oswald. O menino rico mimado pela mãe(1890-1919); o jovem que percebe antes de todos o movimento vanguardista nas artes europeias e o traz ao Brasil (1920-1929); o revolucionário que abraça o socialismo (1930-1945); o artista que não consegue retomar a contento o seu ideário estético e é esquecido (1945-1954). Oswald (tônica é a sílaba wá, Oswáld) morreria aos 64 anos, no ostracismo, vendo reduzido a pó o gigantesco patrimônio deixado por seu pai.

Para adentrar o universo de Oswald anda-se em círculos pelos módulos, que têm entre títulos expressivos, Semana de Arte Moderna e Pau Brasil, onde a polêmica com o outro Andrade, o Mário, é bem explorada. Pensado também como analogia ao espaço do sambódromo, inclusive com uma Praça da Apoteose, antes desta vê-se o Carrossel Amoroso, com as nove mulheres que foram companheiras do artista, cada uma a seu tempo. Há Tarsila, Pagu, Isadora Duncan, Landa Kosbach, Maria Antonieta d’Alckmin... E a trágica Deise, que morreu por causa de aborto mal sucedido e com quem Oswald, roído de culpa, casou-se nas horas finais e fez sepultar no jazigo de sua família. É de Deise o busto esculpido por Brecheret presente na mostra.

A Praça da Apoteose talvez possa ser considerada, por suas alegorias, o coração da mostra. É ali que encontramos na íntegra a síntese do pensamento modernista brasileiro, o Manifesto Antropofágico; um esboço do cenário da peça O Rei da Vela; trechos que desvelam antes de Memórias Sentimentais de João Miramar a questão da sintaxe modernista; alguns trechos originais de Serafim Ponte Grande. Arremata esta praça instalação de Laura Vinci e obra de Cildo Meirelles. Vinci criou um cortinado de notas de mil cruzeiros, onde a imagem de Pedro Álvares Cabral manchada, como se fossem essas notas de caixas de bancos arrombadas, é bem emblemática. De Cildo há uma nota de zero cruzeiro, onde se carimbou em cima da imagem de Cabral a frase “O culpado de tudo”, que é afinal o título da exposição. Ela permanecerá aberta ao público até janeiro de 2012. Em fevereiro começarão diversos eventos que vão lembrar os 90 anos da realização da Semana de Arte Moderna, divisor de águas na literatura brasileira. Oswald de Andrade não foi
o único mentor dela, mas certamente foi o mais sincero, enérgico, polêmico e brilhante. O sujeito expresso dessa mudança radical de rumos que foi o Modernismo.


MUSEU DA LÍNGUA

As exposições temporárias

A palavra museu, na sua acepção comum de coisa antiga e decadente, nada tem a ver com o projeto magnífico que deu origem ao Museu da Língua Portuguesa, cujo acervo inovador e predominantemente virtual combina arte, tecnologia e interatividade. Localizado em imponente prédio histórico, ocupa três andares da Estação da Luz. Tem 4333 metros quadrados de área construída. Criação do arquiteto brasileiro Rafic Farah, dispõe de dois andares para exposições permanente onde o visitante passeia por galerias nas quais a linha do tempo exibe a evolução da nossa língua desde o etrusco, o latim clássico e vulgar, as línguas românicas antigas e as três que compõem o cerne da língua portuguesa contemporânea: o português lusitano, as línguas indígenas e africanas. O painel cobre um período de seis mil anos de história. Mas é apenas uma das possíveis explorações por parte do visitante, que costuma se encantar com a Grande Galeria, o Mapa dos Falares, os Totens Multimídias, o Beco das Palavras, a Praça da Língua. Segundo Sílvia
Finguerut, gerente de Patrimônio e Meio Ambiente da Fundação Roberto Marinho, uma das parceiras na concretização do Museu, “não existe no mundo outro como o nosso, exclusivamente dedicado à língua”.

Pelo andar reservado às exposições temporárias já passaram desde março de 2006, quando o Museu da Língua Portuguesa foi inaugurado, nomes muito importantes da literatura brasileira. Mas esta é a primeira vez que se realiza uma exposição sobre a vida e obra de um escritor paulista, Oswald de Andrade. Seu caráter vanguardista antevendo a cultura contemporânea, e sua atualidade transcorridos já quase um século de sua irrupção no cenário cultural brasileiro, justificam plenamente a escolha.


Serviço
Título: Oswald de Andrade, o culpado de tudo
Curadoria Geral: José Miguel Wisnik
Projeto Expográfico: Pedro Mendes da Rocha
Realização: Museu da Língua Portuguesa
Duração: até 30 de janeiro de 2012
Dias: menos às segundas, das 10 às 18 horas
Local: Estação da Luz- São Paulo.
Fone: (1) 3326-0775

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