Tango

Por: Lucileida Mara de Castro

Alphonsus, dança comigo? Eu? Por que eu e não Outro? Estou com vontade de dançar contigo, ora... Eu não sei dançar! Todo mundo sabe dançar, vem, você me acompanha... Todos ficariam olhando, eu me sentiria incomodado: convida Outro. Outro talvez não queira, talvez eu também não queira Outro. Eu já te quis tanto, amei tanto, desejei tanto não me vias, não percebias meus sentimentos... O que é isso, o que passou, passou. Não! Prefiro ficar aqui. Ora, Alphonsus, é só uma dança: vem, dança comigo. Todos que me vissem diriam: pobre Alphonsus, pobre Alphonsus... É só um tango, homem! Não é um jogo de cartas que decide a vida! Todos que me vissem diriam: fraco Alphonsus, fraco Alphonsus. É só um bolero, homem, não é um jogo de búzios que descortina a vida! Todos os que me vissem diriam: ai do Alphonsus, ai do Alphonsus! É só uma quadrilha, homem, não um pedido de casamento. Todos os que me vissem diriam: louco Alphonsus, louco Alphonsus! É só um frevo, homem, a vida não é de todo séria... Todos que me vissem diriam: miserável Alphonsus, miserável Alphonsus! É só uma dança, homem, que digam tudo, que sabem todos? Vive a vida, homem, sai desse marasmo, abre as janelas do mundo e valsa, valsa como nunca! Valsa! Ai de mim, fraco que sou, louco que estou, miserável dentre os miseráveis, demente dentre todos, ainda assim te digo não! Agora digo-te eu: pobre Alphonsus, miserável que és, penitente que és, prisioneiro do que meus olhos ontem não viram. Não me convidas mais para a dança? Não posso convidar quem não vejo, não posso convidar quem não é fica junto do teu acervo de nadas, bailo com o Outro que vejo ali. Ai, que morro um pouco hoje porque brincaste comigo. Fala sério! Ai de mim, pobre de mim, coitado de mim, cerro meus próprios olhos, enterro minha própria alma, choro por mim, eu, o infeliz Alphonsus! Até nunca, Alphonsus.

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