Nauta

Por: Luiz Cruz de Oliveira

Vivi.

Velas desfraldadas, lancei sonhos e veleiro ao mar e, por semanas, meses e anos, vivi em meio a monstros e à água. Uma vida inteira se passou, e eu era só mãos no leme, só olhos perscrutando o amanhã.

A lua cheia minguou, minguou, sumiu. Foi hibernar com as estrelas em algum buraco negro, temerosas da tempestade que urrava todas as noites.

Os dias, filhotes da aurora boreal, eram os mesmos todos os dias, com sua claridade cegando e com seu olho de fogo queimando até corais.

Ainda veio a borrasca e rasgou as velas e apagou todas as velas. Quando ela se escondeu lá atrás do horizonte, a brasa inclemente veio navegar outra vez, com seu olho arregalado. Sua insistência estragou os alimentos e quebrou o ânimo.

Restaram pão e água e solidão e desejo.

Nauta obstinado, avistei a terra. Joguei fora o binóculo, embarquei no bote, remei as últimas forças.

Pisei a areia, corri , braços abertos, aproximei-me.

Não soube nem articular as palavras, nem concatenar as idéias. Não externei meus sentimentos, meu amor imensurável.

Morri na praia.

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras