O vale

Por: Mauro Ferreira

Quando ele estudava arquitetura na minha classe, era um personagem de histórias em quadrinhos. Grande e forte, ele tinha apelido de Frangão, sei lá por que, sua fama de conquistador decorria mais do enorme Ford Galaxie cor de vinho que dirigia que dos seus dotes persuasivos. Era um pé de valsa que freqüentava os bailes do vale do Paraíba, onde vivia, assim como na Baixada Santista. Fazia maquetes e gostava de fabricar geringonças, era uma criança em busca de brinquedos.

Duas ou três vezes passei o final de semana em sua casa num sítio perto de Jacareí, sua mãe era cozinheira de mão cheia, ideal para estudantes esfomeados e longe de casa, como eu e Osias, meu colega de “república”. Depois de formado, encontrei-o apenas uma vez, num encontro de nossa turma da faculdade. Até que pouco tempo atrás, durante um almoço na casa de outro amigo dos tempos da faculdade de arquitetura, ele chegou com a nova mulher e muitas, mas muitas histórias. Ele me contou em detalhes suas peripécias profissionais durante os últimos quarenta anos. Confesso que fiquei de queixo caído.

Quando estudante, uma das maneiras que ganhava dinheiro para pagar os estudos era com um ônibus que o pai tinha. No final de semana, ele levava um ônibus cheio de operários de Jacareí até um lupanar em Caçapava, onde podiam beber e fazer outras coisas. O Frangão ficava até as quatro da matina aguardando a turma terminar a algazarra e, como não bebia, levava tranquilamente todos de volta em segurança a Jacareí. Isso muito antes da “lei seca”. Cobrava dos operários apenas a passagem normal, pois na verdade seu lucro vinha de um valor fixo por cabeça que levava, tinha acertado com a dona do bordel uma “taxa de fidelidade”.

Mais tarde, suas preocupações sociais, hoje chamadas de responsabilidade social, afloraram. Empresário da construção civil, percebeu que os peões que trabalhavam para ele na montagem de grandes estruturas metálicas que ele mesmo projeta, calcula e monta (como brinquedos), recebiam o salário ou “vale” no final de semana e gastavam tudo na zona do meretrício, deixando mulheres e filhos sem ter o que comer. Bêbados, eram explorados pelas mulheres e pelos donos dos bares, que cobravam cervejas a mais e muito acima dos valores de mercado.

Como o militar do livro “Pantaleão e as Visitadoras” (que recomendo a leitura) escrito pelo Nobel de Literatura Vargas Llosa, Frangão procurou a dona de um puteiro da região e fez um contrato com ela de um verdadeiro “vale-zona”, que incluía sexo e um número fixo de cervejas por preço justo, preços de mercado. Com isso, o trabalhador tinha seu “lazer”, sobrava dinheiro para a família e na segunda-feira estava de volta ao trabalho, reduzindo o absenteísmo na empresa.

Não sei como o Frangão ainda não se tornou um daqueles palestrantes de auto-ajuda ou motivacionais para empresários em busca de novidades na administração de seus negócios.

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