Lacunas

Por: Janaina Leão

Concordo com o poeta quando ele diz que a pior dor que existe é a dor do não vivido...

Essa lacuna, esse vazio é tão grande que nem ela poderá suprir ao saciar minha boca novamente. Os dias sem ela, a cama sem ela, minha mão sem a pele dela, meus olhos sem aquela figura esquiva, parecem ter encontrado essa maldita lacuna.

Vazio que me consome de desejo quando penso naquela noite doce... Um prazer parecido com o de roubar uma rosa, cortar a mão e ganhar um beijo- curativo.

Sentir é realmente tão complicado... Daria minha eternidade por alguns momentos ‘não-vividos”... O aniversário de 25 anos da minha irmã, me formar diante dos olhos da minha avó e receber sua bênção todos os dias de manhã... Sentir o cheiro do feijão de ‘hoje”... Apanhar jabuticabas e chupar na calçada distribuindo para os vizinhos. Ver o mar pela primeira vez segurando a mão daquela que me deu o nome...

Ah! Quanta falta faz tudo que não vivi... Ou que vivi pouco.

Não dói... Dilacera, arde e sufoca.

Meu estilingue ainda está enterrado lá no sítio do meu avô - onde as cascavéis faziam coro com seus chocalhos fascinantes. Hoje já não posso escavar pedras preciosas no garimpo, ou então cavalgar no velho cavalo da carroça - machucado e ferido pelo açoite gentil da mão trabalhadora. Não posso colher o café, a manga verde, ou as amoras que manchavam nossas roupas brancas...

Assim como todas essas lembranças presentes, ausentes... Intolerantes para uma menina que tem muita sede, e insiste em caminhar sozinha no deserto - Eu queria... Queria tê-la nas noites de chuva e frio, queria tê-la na volta do trabalho, queria tê-la ao meu lado no teatro, na mesa, na sala que antecede todas as portas pelas quais eu entraria se ela estivesse ao meu lado.

Não há nada de extraordinário no amor. A não ser a forma suave que ele tem de nos fazer sorrir sem motivo aparente.

O amor às vezes te faz fugir... O ódio às vezes une. Sentimentos complementares e intensos. Assim como o sereno, a garoa, a geada - simples, sutil e devastador...

Solo infértil é o que não tem dono.

Terra de ninguém é solitária e ansiosa. A minha está pulsante e bem cuidada - lá eu planto imagens, sonhos e desejos que precisam ser mantidos úmidos... E tem um arbusto de pretérito-perfeito. Muito perfumado!

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