O preparador de corpos

Por: Everton de Paula

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Igor Caraviéri teria atravessado sua juventude de forma, digamos, natural, sem tropeços de relacionamentos, não fosse sua personalidade introspectiva, caladão, de poucos achegos. Nunca fora a festas de amigos da escola, a bailes ou outros encontros coletivos por preferir a sua própria companhia, isolado em seu quarto ou na penumbra das ruas no silêncio da noite alta e das madrugadas envoltas, na maior parte, por densas neblinas. Era avesso às companhias femininas, embora ficasse patenteada sua masculinidade.

Sentia-se à vontade nas longas jornadas solitárias, o que lhe permitia um caráter reflexivo sobre os mais variados assuntos, em especial os extremos da vida humana, a um só tempo naturais e misteriosos: nascimento e morte. Permitia-se mais: a leitura da ficção fantasiosa, o gosto por Edgard Allan Poe, Bram Stoker e preferencialmente William Shakespeare. Não dispensava, de mesmo modo, a literatura macabra brasileira de Thomaz Lopes, João do Rio, Humberto de Campos. Enfim: podia-se dizer que a literatura, sob forte viés, forjara grande parte da personalidade de Igor.

Como assim fosse, não seria estranho que, em idade adulta e necessitando trabalhar para seu autossustento, optasse por empregos de muito pouca sociabilidade. Não se dava bem com o gênero humano em ação: falando, andando, respirando, gesticulando, raciocinando, queixando-se, festejando, vivendo. Aos poucos e não para o seu próprio espanto, ia formando o caráter do ser humano perfeito para lhe fazer companhia: o morto, o defunto, o cadáver... O corpo sem vida que não oferecesse a mínima possibilidade de um diálogo, de um debate. A inércia, o silêncio, o contato frio. Estranho! Estranho e sinistro. Mas real, pelo que me contaram.

Igor passou a procurar uma função que pudesse desenvolver numa funerária qualquer (nada mais lógico!) de sua cidade. Não a de contador, ou administrador, ou de vendas de planos, convênios. Nada de atender ao telefone, ou alguém em prantos buscando os serviços fúnebres, das flores, dos detalhes do velório, do anúncio de falecimento em jornais... Não, nada disso. Queria exatamente aquela função detestável e naturalmente excusada por todos, que consistia em preparar o corpo do cadáver para a exposição por horas a parentes, amigos e conhecidos. Tornou-se, assim, o maquiador ou, em suma, simples e raso, o preparador de corpos para velórios.

Ficava lá, isolado em sua sala, lendo e refletindo, até que o chamassem para dar cabo à miserável tarefa. Igor desempenhava-a com dignidade, a mesma com que revestia os restos mortais desse ou daquele defunto.

O senhor Dagoberto era o proprietário da funerária. Soube entender a sisudez de Igor e o tratava com respeito e sutil admiração. Esta situação assim perdurou ao longo de quase duas décadas.

Igor já se aposentara, mas não quis parar de trabalhar. Contava ele com 67 anos de idade quando lhe coube preparar o corpo de quem mais se aproximara em vida: o senhor Dagoberto falecera de fulminante infarto. Era noite. Chovia muito mansamente. O corpo do proprietário já se encontrava na fria mesa de granito. Igor sabia que aquela deveria ser uma preparação especial. E assim foi. Desempenhou mais uma vez seu trabalho, embora se esmerando em detalhes de reconhecimento. Posso dizer assim?

Passado algum tempo, logo ao anoitecer de um dia sombrio, Igor percebeu que havia um novo cadáver à sua espera. Como era de costume, ficou em sua sala, esperando que todos os funcionários se retirassem para dar início à sua obra macabra.

Ouviam-se apenas um e outro trovão longínquo e o monótono respingar da água sobre o ruflo. Igor chegou a adormecer em sua espera. E sonhou. Algo parecido a um diálogo com o finado Dagoberto, difuso, incompreensível... Até que o ribombar de um trovão mais próximo e forte o acordou... E o fez aprontar-se e dirigir-se ao cômodo de preparação de corpos.

O ritual se repetiu. Principiou, às voltas do cadáver, vestindo-o, maquiando-o: salientou-lhe o nariz, esmaeceu o profundo das órbitas, esbateu-lhe a fronte como se se tratasse de um boneco; acentuou-lhe os zigomas, pintou-lhe as sobrancelhas, avivou-lhe os lábios. Recuou alguns passos e contemplou a sua obra. Estudou-a. Algo lhe parecia familiar... Mas não deu importância. Voltou ao cadáver: retocou-lhe uma pálpebra, repuxou e retificou-lhe as vestes. Ninguém por testemunha. Novos retoques, mais delicados, mais cuidadosos, mais sérios; uma torção insignificante no pescoço engravatado. Novo recuo. A ilusão de vida muda lhe era empolgante.

Aproximou-se uma vez mais. Súbito, o clarão de um relâmpago iluminou ainda mais o rosto do cadáver, e o maquiador, num átimo congelado, sentiu o duro e espantoso baque: havia preparado o seu próprio corpo! Sobre a mesa, no féretro, jazia o resto mortal de Igor Caraviéri.

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