La Quercia

Por: Maria Luiza Salomão

Chegar a um país desconhecido à noite, depois de doze horas espremida feito sardinha em lata voadora, estonteia. No aeroporto, depois de entender como chegaríamos ao mítico Centro Histórico da cidade, tomamos a lotação oferecida em vários guichês, que nos deixaria no hotel. Em meio a um casal de espanhóis, duas americanas e um cavalheiro mudo que me pareceu inglês, tudo se descortinava novo, rumo à Roma Antiga.

Depois de acertado o valor da corrida no guichê, o chofer (a caminho da condução) alterou o valor em mais dez por cento. Na tentativa de argumentar contra o ato sacana, o italiano não titubeou - jogou a mala no chão! Reféns de um mix de exaustão, de querer chegar ao hotel e entrar no clima de férias, aceitamos. Quieta, temendo situações futuras análogas (iríamos rodar o país em quinze dias!), contrariada com a rudeza do condutor, fui relaxando ao ouvi-lo cantar durante o percurso, como um gondoleiro veneziano.

Turista sofre, pensava, tentando rir de mim mesma. Uma viagem “ao estrangeiro” enriquece não só pelos momentos agradáveis (como tudo na vida). Namoro, casamento, relações com colegas na profissão são viagens que não são agradáveis o tempo todo, mas é nos embates (internos e externos) que se constrói o patrimônio psíquico, pessoal e inalienável.

Hora do jantar. Sem querer correr riscos, pedi ao recepcionista do hotel que sugerisse um restaurante. A música da língua ainda não me era familiar, pedi que escrevesse. Sorri ao ler - “La Quercia”. Nome conhecido no Brasil, o político que nasceu em Igaçaba. Para os francanos aquele que deu o nome do seu pai ao Hospital do Coração. O que significava em italiano?

Quercia é nome de uma árvore. O garçom não nos indicou a bela árvore plantada no centro da pequena piazza do restaurante, dando o nome ao restaurante. Estava no logotipo do guardanapo, nas louças. Quercia é o nome, em italiano, de Carvalho. Descobri em um texto bi-lingue, italiano-inglês, “Quercia” é “Oak”. No outro dia eu a fotografei.

A decoração do La Quércia tinha um painel da Santa Ceia com rostos célebres, no lugar dos discípulos de Jesus: filósofos, músicos, poetas, escritores. O restaurante nos serviu maravilhosamente, bacalhau com tomate e manjericão, e tagliarini à matriciana (bacon & pecorino). A comida na Itália nunca decepciona, nem o vinho, até o “de mesa”. Italiano parece nascer sabendo o melhor vinho para a comida. Assim, gostosamente, esquecemos temores estrangeiros.

E eu me apaixonei perdidamente por Roma.Tudo me agradou - comida, vinho, a língua, a atmosfera misteriosa da cidade que tem, a céu aberto, camadas de história superpostas, A.C., D.C., Idade Média, Cidade dentro da Cidade (Vaticano), país dentro de país (San Martino, Vaticano), ruínas falantes, fontanas aqui e ali, o Rio Tibre. Tesouros a olhos revistos.

Ao entardecer, contemplando as pontes seculares do Fiume Tenestere (Rio Tibre) um manto de pássaros ondula ao vento, como finos lençóis negros dobrando e desdobrando, em coro afinado de trinados. Os pássaros romanos parlam! Um chuá contínuo quando eles, invisíveis, recolhidos às árvores, misteriosos, adentram a noite romana sussurrando seus arrepios.

As sereias-pássaros ao entardecer me chamam. Para ver o que ainda não vi da minha Roma.

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