Fogão a lenha

Por: Eny Miranda

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Em dados momentos, a brisa, cantando cantigas eternas, sopra o longínquo no agora, desmascarando supostas barreiras espaciais e temporais, unificando lá e aqui, já e outrora. Nesses instantes de simultaneidade, Einstein, Everett, Hawking e Proust dão-se as mãos e, com eles, viajamos na “física do éter”.

Lendo mais uma das seções de culinária (agora em novo formato) do Comércio da Franca - espaço usado por Sônia Machiavelli para, muito mais do que nos trazer delícias, levar-nos espaço e tempo afora, caminhando caminhos da História, visitando diferentes culturas, provando os muitos sabores da vida - recebi, no rosto e na alma, o sopro da brisa transgressora de limites, o bafejo do atemporal.

“Porco na lata”. Sob esse título que, a princípio, me lembrou a antiga fiambrada Wilson - carne suína contida em pequenas latas munidas de chaves para sua abertura - reencontrei, na verdade, meu pai e suas histórias. A receita refere-se à forma como nossas avós e bisavós conservavam carnes, antes do uso da geladeira doméstica: cozidas e imersas em gordura.

Lendo o texto de Sônia, senti as letras saírem da página - espirais em busca do tempo perdido - e o sopro do intemporal chegar com a brisa, abracadabra, trazendo papai, jovem ainda, falando dos bailes na roça, a léguas de distância da fazenda; da volta a casa, alta madrugada, estômago insone; da busca - e do encontro - dos pedaços de carne de porco, na lata de banha (“não essa de hoje em dia, mas a pura gordura do capado, alimentado a inhame, abóbora, batata doce... plantados e colhidos ali mesmo, nas terras da fazenda”); do cheiro e do sabor que ofereciam ao sensório, depois de aquecidos na chapa do fogão a lenha - achas conservadas em brasa, para manter o bule esmaltado com o cafezinho no ponto.

Nesse momento de tempo desprovido de ponteiros e munido de chaves violadoras de limites, momento de trânsito livre entre universos paralelos, Einstein, Everett, Hawking e Proust estão comigo, e com papai, em uma especial cozinha das Gerais, na Fazenda do Capim, em Tombos de Carangola, chegados, todos nós, de um baile, a léguas de distância, estômagos na boca, buscando - e encontrando - os pedaços de carne de porco guardados nas latas, imersos em gordura; saboreando-os, depois de aquecidos na chapa do fogão a lenha; e rindo dessa história toda de relógios e tempo e distâncias intransponíveis.

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