‘O Treze e outras histórias’

Por: Sônia Machiavelli

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“Era agosto quando cheguei. O vento seco, mês de cachorro doido, como diziam antigamente. Confesso que senti receio, afinal eram muros altos, grades, bolsa revistada na entrada, na saída. Mas o receio foi só no começo. Foram tantas as surpresas, e eu fui percebendo que a vida acontecia ali.” Com estas frases, Taís Pereira de Freitas inicia seus agradecimentos aos que de formas direta e indireta contribuíram para que seu projeto literário vingasse. E, junto à autora grata aos apoios, manifesta-se a escritora de recursos sutis. Ao escrever que “a vida acontecia ali”, já desperta o leitor para a dimensão profunda da realidade que se vai descortinar nos relatos que compõem a obra. A vida sempre é muito rica, mesmo quando a miséria parece inarradável.

Autora do recém lançado O treze e outras histórias, Taís Pereira de Freitas já esteve nesta página há dois anos, quando estreou com Bagaços. Investindo novamente nos contos, reuniu no volume de que tratamos hoje vinte e uma histórias curtas, unidas por um mesmo tema. Seus personagens são adolescentes infratores internados em unidades de ressocialização cuja sigla aparece como algo que não se fixa bem, como diz a protagonista Cristiane, do conto Enquanto isso... lá fora... : “Vira e mexe lá está ele naquele centro de ressocialização, que ela não sabe dizer se é MUCEM, MUNABEN...alguma coisa com bem, completa.”

Achei interessante, sob o aspecto da estrutura do livro, a colocação deste conto, assim como seu tom dissonante em relação aos demais. Ele é nitidamente o único com certa leveza, resvalando pelo humor. Inserido precisamente no meio do conjunto, é precedido e sucedido por dez, todos contingenciados por muita dor e angústia, derivadas, num primeiro plano, da privação da liberdade. A sensação de aprisionamento transparece na escolha das palavras, na articulação das frases, na descrição dos ambientes, na composição dos diálogos. Também e com intensidade nos registros de sentimentos de culpa, ou percepções da raiva e da violência. Culpa, raiva e violência, também desejo de vingança, são habitantes habituais daquelas almas a quem as circunstâncias desorganizaram desde cedo a agenda mínima de amor e cuidado a que deveria ter direito toda criança. Assim, o conto citado parece erigir-se como necessário momento de pausa para que o leitor, vindo da peregrinação por uma dezena de textos ásperos, consiga oxigenar-se para
prosseguir no trajeto destas histórias trágicas, quase sempre sem perspectiva de possibilidade reparadora. Há apenas duas exceções, no universo de vinte e uma. Talvez a proporção ficcional corresponda à da realidade do mundo erodido pelo crime, espaço onde se debatem milhares de adolescentes infratores em nosso país.

Na orelha de O Treze e outras histórias, Luiz Cruz de Oliveira, grande nome da literatura francana, afirma, ao se referir à autora, que “embora haja pouca distância cronológica entre seus dois livros, já se evidenciam nas duas obras o olhar agudo, preocupado e solidário sobre a sociedade- traço indispensável a todo escritor”. No prefácio, Regina Bastianini, outro ícone de nossas letras, salienta que “ a autora se preocupa com a linguagem, e busca dizer o mundo dos personagens tal como eles, os personagens, o organizam e traduzem, fazendo da palavra mais do que ponte entre o leitor e o mundo narrado, mas também porta para o espantoso mundo desses filhos da atualidade e da nossa até agora impotência diante de coisa tão básica como cuidar e encaminhar filhotes”. Ambos, Cruz e Bastianini, colocam luz sobre o essencial caráter social desta obra.

A unidade dos relatos, a avaliação dos contextos, a análise psicológica dos personagens, e sobretudo o que se concentra nas entrelinhas, reforçam este discurso social da narradora. Na verdade ele já se explicita na apresentação do livro, quando Freitas considera que “ os elementos da realidade que, por vezes, quase sem querer, apresento, não são puros. Estão impregnados do meu jeito militante de ver a vida, de minha resistência à dominação”. Estas palavras me remeteram de imediato a uma frase de Oswald de Andrade: “ Contestar é um dever da inteligência.” Contestar é o que faz o tempo todo a ficcionista, ao colocar para falar com linguagem expressiva seus personagens atormentados, ao descrever com objetividade lugares ordinariamente fragmentados de onde provêm esses jovens anárquicos, ao recortar espaços que deveriam servir de abrigo e necessitam ser repensados, o que não é proposta facilmente exequível.

PS: Treze é o nome de inquietante personagem.


OLHAR SOLIDÁRIO

Taís Pereira de Freitas

Formada em Serviço social pela Universidade Estadual Paulista, com mestrado concluído em 2009, Taís Pereira de Freitas, 30 anos, tem se dedicado à carreira acadêmica e ao serviço público. Professora substituta no curso de Serviço Social na mesma universidade onde se formou, e servidora pública na Secretaria Estadual de Desenvolvimento Social de São Paulo, Tais está sempre em movimento. Ora como colaboradora do Centro de Estudo, Pesquisa Ética e Extensão Rural, na Unesp/Franca, ora como escritora de um gênero que oscila entre a crônica, o conto e o documentário. Seu livro de estreia, Bagaços, traz à tona o sofrimento dos cortadores de cana da região. O Treze... se fundamenta em relatos de uma narradora, a própria autora, a partir de experiências com menores infratores recolhidos. Taís começou na literatura como grande parte dos escritores daqui e de outros lugares deste Brasil gigante: compondo antologias.

Na prosa, seu estilo enxuto não elide a observação acurada na qual parece mergulhar para descobrir razões de determinados comportamentos. Há um gosto evidente pela linguagem, o que a fez, no livro resenhado ao lado, listar termos que indiciam a comunicação entre adolescentes que engrossam o contingente dos que cometeram crimes. “ Para situar o leitor, apresento uma espécie de significado dessas expressões, na ordem em que elas aparecem no texto. Esclareço que os significados foram atribuídos por mim, a partir do que aprendi nesse período e podem não ser a definição exata do que eles representam para os adolescentes. De qualquer forma, foi assim que eu os entendi”, diz a autora. Adendo necessário para o leitor que não sabe o que é funça, jumbo, naifa, biqueira, vermes, jackies... (SM)

Serviço
Título: O Treze e outras histórias
Autora: Taís Pereira de Freitas
Gênero: Ficção/ Contos
Editora: Ribeirão Gráfica

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