Você é que é

Por: Mirto Felipim

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- Você é que é.

- Você. Seu, seu...

Nesse ponto, quando os dois garotos já se preparavam para a agressão física iminente, a professora interveio, rompendo pelo pequeno grupo de coleguinhas que já se formava em volta dos dois garotos, incentivando-os às vias de fato. Aquele era um fato raro naquele estabelecimento altamente especializado na educação de crianças pré-escola.

A educadora se interpôs entre os dois pequenos e, com todo o seu preparo acadêmico, colocou em prática o discurso preparado para aquela rara ocasião. Os dois ouviram em silêncio de cabeças baixas. Entretanto, quando tudo já parecia terminado, e os dois mandados de volta à classe, Rogerinho ainda teve tempo de, ao passar pelo desafeto, balbuciar, quase imperceptivelmente, o último insulto: - Seu gay.

A palavra penetrou por todos os sentidos de Theosinho como uma droga injetável. Já ouvira aquela palavra, até mesmo em casa, mas não sabia o significado. E, agora, aquela parecia ser a pior de todas as ofensas. Contudo não teve como reagir, mesmo porque não sabia do que estava sendo xingado. Lembrava-se de ter ouvido o pai pronunciar aquela palavra uma ou duas vezes, mas sempre em tom de galhofa e isso não o ajudava em nada a esclarecer como aquilo poderia ofendê-lo.

Surpreendeu-se um pouco ao ver sua mãe e a de Rogerinho na escolinha ao final da aula. Entretanto, mesmo na sua tenra idade, conseguia imaginar o porquê de estarem ali. Sentaram-se, silenciosamente, sob o olhar discreto de uma auxiliar, enquanto as mães permaneciam dentro da sala da diretora. Lado a lado com o inimigo, teve a tentação de lhe perguntar o significado da medonha palavra. Ponderou, seria muita humilhação sequer saber do que havia sido insultado. Preferiu aguardar melhor oportunidade.

Já em casa, Theosinho teve de ouvir o enorme sermão de sua mãe, cheio de sabedoria, a respeito da educação que estavam lhe dando, que a violência não levava a lugar algum, que deveria respeitar seus amiguinhos, não brigar, não xingar, e mais um monte de motivos para ser um bom menino e, como sempre, que estavam gastando uma fortuna com a escola, e que ele deveria aproveitar melhor. Dito isso, decretou que o pai teria com ele uma conversa.

Conformado a ficar sem a mesada e, provavelmente, sem cinema no final de semana, aguardou resignado a chegada do pai, sem que a palavra desconhecida abandonasse seus pensamentos.

Não foi diferente do que imaginava. O pai repetira praticamente tudo aquilo que a mãe dissera, cancelando a mesada, mas não o cinema, afinal ele também queria ver o filme.

Quando tudo parecia já resolvido, encheu-se de coragem e perguntou: - Pai, o que quer dizer gay? A princípio a pergunta não foi bem entendida. No entanto, em seguida, o pai pediu para que repetisse. Gay, pai, o que é? Ainda embaraçado e surpreso, tentou tratar o assunto com a naturalidade necessária: - São pessoas diferentes, filhão. Pessoas que gostam de coisas erradas. Como, pai? Bom, meu filho. Homem que gosta de homem, por exemplo. Então eu não posso gostar de você? Isso é diferente, filho pode gostar de pai. Estou falando de homem que quer casar com outro homem, entendeu? E isso é errado, pai? Casar é errado? Homem com homem, sim. (Pensou em aproveitar a situação e alertá-lo também sobre as prostitutas, mas preferiu deixar para outra ocasião) - Mas onde você ouviu isso? Na escola, quando... Ah, na escola, eu já sabia, tinha que ser na escola, decretou. Antes que o filho continuasse, deu por encerrada a entrevista e mandou que ele fosse para o banho.

Em seguida, gritou pela mulher, que chegou meio assustada até a sala. Odete, amanhã vamos juntos à escola. Precisamos conversar com a diretora sobre o tipo de educação que está sendo ministrado lá. Afinal de que adianta a gente se esforçar tanto dentro de casa, fazer tantos sacrifícios e dar a educação correta, sem preconceitos, com diálogo e tudo o mais, se na escola eles acabam aprendendo coisas erradas e ainda trazem problemas para dentro de casa?

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