Canetas

Por: Chiachiri Filho

Aprendi a escrever com um lápis (Johan Faber, n. 2 ) e com uma caneta de pau na qual se acoplava uma pena de ferro. As penas de ferro eram frágeis: esgarçavam-se, abriam-se, ficavam com a ponta rombuda e, portanto, imprestáveis para a escrita. Havia também as penas de aço. Essas sim, eram fortes e agüentavam o peso das mãos e os dedos ainda inábeis dos alfabetizandos.

Em minha mesa escolar havia, do lado direito, um tinteiro. Eu molhava a pena de aço e ia escrevendo as primeiras letras num caderno. Antes de virar a página, enxugava-a com um mata-borrão para evitar que as letras se deformassem e o caderno ficasse todo manchado de tinta. Nem sempre conseguia bom êxito nesse trabalho.

Quando eu estava no segundo ano primário, meu pai deu-me de presente uma caneta esferográfica. Era a grande novidade da época. Novidade que, no entanto, não “emplacou “. A caneta era de pau que terminava por uma ponta de metal em cujo interior estava uma minúscula esfera. Foi um fracasso: ela não escrevia, ela borrava. Voltei à minha pena de aço e ao velho mata-borrão.

Tive, depois, várias canetas -tinteiro, isto é, aquelas que armazenava em seu próprio bojo a tinta necessária para a escrita. Lembro-me de uma Parker 21 e de uma Sheaffers. A Parker era norte-americana e a Sheaffers alemã. Eram canetas de primeira qualidade , desde que não se esquecesse de encher o seu depósito de tinta.

A caneta mais cobiçada era a Parker 51 que, segundo diziam, tinha uma pena de ouro. Possuí uma caneta dessa marca e tipo. Era excelente: a pena deslizava sobre o papel como uma pluma.

Quando freqüentava o curso superior, voltei a usar a caneta esferográfica. Porém, a esse tempo, haviam-na aperfeiçoado de tal maneira que nenhum outro tipo de caneta conseguiu superá-la. Ao parar de escrever, eu tinha uma esferográfica Parker, prateada, que não borrava, não arranhava e só não deixava minha letra mais bonita (ou menos feia ) por desleixo próprio.

Não sei, prezado leitor, porque estou lhe falando sobre canetas. Talvez seja por saudosismo. A caneta é um instrumento quase em desuso. Até a máquina de escrever foi relegada ao esquecimento. Estamos na época dos computadores, basta digitá-los. O calígrafo está sendo trocado pelo apertador de botões. Os manuscritos foram substituídos pelos impressos e os impressos sê-lo-ão pelos CDs .

Afinal de contas, hoje em dia, para que serve uma caneta? Somente para assinar algum documento ou coçar a comichão de um ouvido.

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