Sonata

Por: Luiz Cruz de Oliveira

O cronista atravessa a Praça Barão da Franca, aporrinhado com o peso de três ou quatro sacolas contendo marmita, frutas, pão, guloseimas. Já está prestes a alcançar a Rua do Comércio quando uma voz interrompe sua caminhada.

- Professor, um momento.

A dois metros de distância, ele vê o dono da voz, reconhece aquele que, antes, era apenas um vulto. É o Gonzaga, dono da Ótica Ocular.

- Você precisa escrever sobre a Praça Barão. Olha que sossego. Está vendo aquele homem dormindo ali no banco?

Não, não está vendo homem dormindo na praça. Mas já está acostumado a cobranças de pessoas que se esquecem de sua limitação, de uma visão que não há, faz tempo. Assim, murmura sons ininteligíveis, acompanhados de movimentos de cabeça, deixando o outro não sabendo se ele irá, ou não, escrever sobre uma tranqüilidade que, possivelmente, só o Gonzaga enxerga na praça.

Em casa, despeja o conteúdo das sacolas na geladeira e em gavetas do armário. Alguma coisa incomoda o homem, por isso, ele retorna à rua.

Fica parado por alguns minutos, lá no fundo da Praça Barão, observando homens e mulheres, jovens e velhos que vão e vêm. Parecem certos de seu rumo, de seu destino, e isso os faz invejáveis. Descobre que as pessoas preferem formar grupinhos, falarem ao mesmo tempo, ligadas por interesses comuns. Este é o grupo dos vendedores e compradores de pedras preciosas. Aquele, o dos vendedores e compradores de imóveis rurais e urbanos. Alguns senhores discutem a engorda de boi em Mato Grosso. Há os funcionários de lojas, e há os muitos colegas de aposentadoria.

Carros passam pela Rua Monsenhor Rosa, e o som de seus rádios disputa espaço na praça, mas perde longe para os telefones portáteis que estridulam em maior número que o de roseiras.

O cronista passeia calmamente pelas ruas laterais da praça, depois percorre com extrema lentidão as alamedas curtas. Após algum tempo, senta-se à sombra de uma das inúmeras árvores, e faz colheita. Uma criança de dois, três anos, tropeça, cai, levanta, muda passos na ânsia de alcançar um pombinho que, ignorando a presença humana, bica migalhas do rico banquete que os homens, ignorantes disso, plantam no chão da praça. Descobre que, perto dele, pelo menos duas pessoas cochilam.

Começa a achar razoabilidade na observação do Gonzaga.

Fecha os olhos e, cinco minutos depois, distingue todos os ritmos: há a música das conversações, a música dos telefones celulares, a música dos rádios dos automóveis, a música das lojas, lá longe, apregoando liquidações, descontos e quimeras outras. Concentra-se mais e ouve, distintos do zum-zum, gorjeios vindos do teto verde que o protege dos raios solares do meio dia.

Sente-se envolvido por sonolência, entende que não pode ficar ali, sob pena de aposentar compromissos. Levanta-se, caminha em direção ao lar.

Anda devagar, prosseguindo nas descobertas.

O Gonzaga é comerciante, algo preocupado com História, sobretudo com os acontecimentos da região. É certo que, vez ou outra, comenta texto do escriba. Hoje, porém, surpreendeu, ao apontar a sensibilidade para um sossego que a quase totalidade dos homens não enxerga.

O homem caminha devagar, fazendo outras descobertas que ainda não sabe. Não sabe, por exemplo, porque seu espírito tropeça nas pedrinhas do calçamento, tropeça na lembrança do poeta Pablo Neruda, porque seu coração se emociona ao se lembrar de um carteiro.

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