Bagaço de laranja liofilizada

Por: Mauro Ferreira

Quando o carteiro lhe entregou a carta com o papel timbrado da prefeitura, ela gelou na hora. Pensou no pior, tinha sido apanhada nalguma daquelas pegadinhas dos radares da guarda municipal por excesso de velocidade, principalmente naquela baixada do cemitério. Já ficou pensando na bronca do marido por causa da conta a pagar e os palavrões que diria contra a “indústria da multa”.

Ficou aliviada quando abriu o envelope e era apenas um convite do prefeito e da secretária de educação, uma mulher sempre citada como “elegantérrima” pelos cronistas sociais, embora nunca se referissem à qualidade do ensino da cidade. Para a mãe de um aluno que enfrentava dificuldades de aprendizado, não era um convite, era uma convocação. Ele trazia o horário e o local da inauguração da árvore de natal e a chegada do Papai Noel, a que todos os estudantes da rede municipal estavam convidados.

Seria numa avenida com grande movimento, onde um prédio público antigo e mal-cuidado recebia uma pintura rápida todo ano, uma maquiagem só na parte da frente, como um cenário bucólico para os transeuntes desavisados que passavam cansados rumo a suas casas na periferia depois de um duro dia de trabalho.

No dia, pegaram um ônibus mais cheio que sardinha em lata do bairro até o centro da cidade, a mãe e o moleque a tiracolo com roupas de festa. Saltaram no ponto mais próximo suados, despenteados e desfeitos, um calor infernal. Pior, havia ameaça de chuva e o mormaço era grande. No caminho, foram encontrando mais pais e mais moleques, todos convidados para o evento. Papai Noel estaria a caminho também?

Quando chegaram, tudo estava escuro. Um grande palanque havia sido montado nos jardins do prédio. Foi juntando gente, professores, pais, alunos, funcionários e assessores do prefeito. O moleque, entusiasmado, aguardava a chegada do Papai Noel. Quando ligaram o som, ao invés de músicas natalinas, do espírito de solidariedade típico da época, apareceu um sujeito esbravejando nos microfones, falando coisas ininteligíveis para as crianças, sobre viadutos hipotéticos e frutas cítricas.

O moleque, sem entender nada, só perguntava pelo Papai Noel. Como o sujeito não terminava nunca, lembrou a mãe que o jeito que ele gritava e gesticulava parecia com o personagem daquela comédia em preto e branco do Charles Chaplin que tinha visto na TV Cultura, que ele chutava um globo terrestre. Finalmente, ele silenciou e acendeu as luzes. Justamente no momento em que jogaram algo lá de trás bem na cabeça do moleque, que gritou de dor. A mãe do menino ficou indignada com a falta de educação de quem havia arremessado aquilo, mas olhou para trás e nada viu. Olhou no chão, era um bagaço de laranja liofilizada e uma moeda de um real. Quando começou a se inclinar para pegá-la, um assessor do prefeito pisou sobre a moeda e, disfarçadamente, a pegou.

Ficou só o bagaço no chão. A mãe pensou que era assim mesmo, o povo fica sempre com o bagaço.

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