Mercato dei fiore

Por: Maria Luiza Salomão

‘Se eu manejasse um arado, pastoreasse um rebanho, cultivasse uma horta, remendasse uma veste, ninguém me daria atenção, poucos me observariam, raras pessoas me censurariam e eu poderia facilmente agradar a todos. Mas, por ser eu delineador do campo da natureza, por estar preocupado com o alimento da alma, interessado pela cultura do espírito e dedicado à atividade do intelecto eis que os visados me ameaçam, os observados me assaltam, os atingidos me mordem, os desmascarados me devoram. E não é só um, não são poucos, são muitos, são quase todos.’
Giordano Bruno

 

No bairro Campo dei Fiore, em Roma, (outrora uma campina) há uma piazza com muitas barracas, de manhã até às 14 horas, com legumes, flores, azeites, massas. Remanescência medieval e renascentista romana, o Mercato era movimentado por cardeais e nobres, peixeiros e estrangeiros.

O Mercato dei Fiore, hoje, é delimitado por bares e restaurantes, que mantêm a antiga fachada. A estátua de Giordano Bruno (filósofo, teólogo, dominicano), encapuzada e sombria, está no meio da piazza entre as barracas, para fixar o lugar em que morreu, em 1600, queimado como herético segundo a Inquisição. Ele olha para o chão, e é impossível não procurar seu rosto sob a misteriosa capa dominicana.

A piazza era cercada de hospedarias para peregrinos e viajantes. Algumas pertenciam à cortesã do século XV, Vanozza Catanei, amante do papa Alexandre VI Bórgia.

A figura de Giordano Bruno me marcou na época de Ditadura (há um filme sobre ele, de 1973). Símbolo de luta pela liberdade de expressão, além de inspiração para defender minhas convicções. Fiquei comovida por estar em Roma pela primeira vez, e topar com algo significativo do meu passado.

Giordano Bruno, adepto da filosofia de Copérnico, de que a Terra não era o centro do mundo, dizia “Não existem fins, termos, margens, muralhas que nos defraudem e roubem a infinita abundância das coisas”. Em uma peça de teatro que li e reli algumas vezes, Giordano Bruno discute com um aristotélico, convidando-o a mirar o telescópio para provar o argumento, e este recusava a experiência, aferrado em suas crenças. Ele influenciou Leibniz, Spinoza e Goethe.

Fotografei a sua figura na máquina, eu que o tinha fotografado na alma décadas atrás. Eu o reconheci, atravessada por relâmpagos pensantes.

A piazza tem uma casa chamada “Forno”, pães quentinhos, pizzas quadradas deliciosas, vendidas a taglio. Filas de romanos e turistas.

Reina ali um espírito de liberdade. Algo do espírito do próprio Giordano Bruno. Neste dia, sábado, havia um filósofo projetando em uma telona um suposto jogo de futebol entre “gregos” & “alemães” (numa clara alusão à crise européia), onde jogavam Sócrates, Platão, e outros do lado grego, e Marx, e outros do lado alemão. Algumas cadeiras estavam dispostas em semi-círculo para uma conversa com o filósofo. Ah, se eu parlasse italiano!

Mercato dei Fiore me pareceu uma ágora, gentes se cruzando e se expressando. Lugar alegre, animado de conversas, risadas e de palavras, comida farta, o vinho nacional, História, reflexão e divertimento.

A língua italiana com suas muitas vogais - “a” e “i” abundantes, é uma língua aberta, livre, alegre, cantante. Não deve ser ao acaso que produziu tantos compositores famosos de Ópera: Giuseppe Verdi, Puccini, Rossini. Enorme fome de falar italiano.

Trouxe de lá três corujas, o guffo , animal que dá sorte segundo os italianos. Que elas me ajudem a alargar o meu mundinho, a fazê-lo uma Rosa dos Ventos, aberto a qualquer direção, em todos os sentidos.

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