Carta aberta ao Maestro

Por: Everton de Paula

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Meu prezado e muito querido Nazir Bittar: torno pública a minha opinião em face do trabalho, muito além da música, que você vem realizando em Franca.

Estive no teatro municipal na noite do último sábado, 26 de novembro. Vi-me na obrigação de assistir, sem ação, a uma solenidade pública de concessão de cidadania francana ao senhor Carlos Pinto. Muito justa, por sinal, levando-se em conta o que este senhor fez pelas artes de Franca. Mas alguma coisa estava fora de ordem, algo insensato, forçado. Vejamos.

Foram emocionantes (embora a duras penas) as três primeiras apresentações que você regeu. Reuniu jovens de origem muito longe da elite social, cultural e essencialmente musical para formar a orquestra jovem de Franca. De igual modo muito tocante o canto coral da garotada do projeto Guri. A partir daí, com algumas trocas de instrumentistas, a sonoridade da orquestra sinfônica ganhou novo colorido, embora demonstrando estar pouco além do início de um gradual amadurecimento. Este é o seu mérito, Nazir: ir contra uma corrente cultural e politicamente fraca para manter, custe-lhe o que custar (inclusive o permanecer em Franca), uma orquestra sinfônica que ainda nos presenteará com bravíssimas apresentações.

Bem, esta é a primeira parte de minha opinião, se é que ela vale a pena ser lida ou se merece a sua atenção bem como a daqueles que se interessam por artes numa cidade que já ostentou o título de Atenas da Mogiana. Parabéns: você não se furtou de abrir portas da música erudita aos mais simples, aos mais jovens. Muito, muito louvável.

O que ocorre é que Franca e região têm uma particularidade especial: APEGAR-SE AOS MÍNIMOS VALORES CULTURAIS E CONTENTAR-SE COM ISTO. Este é o tormento das instituições de ensino superior. Este é o pesadelo não de quem politicamente comanda, mas que artisticamente dirige um movimento. Daí o domínio do raso à sensibilidade humana: dois ou três acordes para toda uma partitura, aliados a uma sofrível letra de homem traído, fazem com que a música sertaneja domine “o pedaço”, esbaldando-se no muito pouco ou quase nada artístico da Expoagro, cujos fins estão anos-luz em distância da arte contemporânea de qualidade. E o mais dolorido: um mínimo do mínimo do poder público que se constata nos investimentos da arte de grande alcance.

Com o seu talento e sensibilidade, Nazir, nossa orquestra sinfônica, se tivesse fortíssimo, incondicional e vigoroso apoio do governo municipal e convênios afins, já deveria ter atingido níveis significativos de performance.

No último sábado entendi (e não cabia outra leitura) que a sinfônica de Franca foi usada como rabo de foguete numa solenidade de concessão de merecido título de cidadania. Afinal, era público garantido (e paciente; oh, Deus, como foi exercitada a paciência naquele momento preliminar!). E o atraso que houve decorrente disso, e a entrada “nervosa” dos instrumentistas, e o microfone que não funcionava, e sua estante que teimava em despencar, e as partituras que voaram ao chão... Tudo junto, meu querido Nazir, é desprestígio e desrespeito a você, ao seu trabalho, aos músicos, ao público.

Imagino, assim de brincadeira, o leão Eleazar de Carvalho esbravejando um NÃO! sonoro e retumbante ao que hoje é proposto para se manter a nossa orquestra. Mas você é lhano, cortês, sensível, espiritualizado... Em vez do “não”, recorre aos parcos recursos do poder público e ainda exerce atividade social com classe e elegância. Bravíssimo! Mas não o suficiente para o nobre brilho de uma sinfônica.

Se você ainda ficar em Franca (o que queremos de coração), insistindo em sua ordem espiritual, intelectual e artística de movimentar as classes não elitizadas colocando-se em contato com o que há de mais sublime na música clássica mundial, é porque você está acima dos comuns.

Digo isto porque o mesmo ocorre com a literatura local, e as artes cênicas e plásticas: sempre lhes coube o mínimo do mínimo. Enfatizo que a arte deveria merecer da municipalidade francana um outro tratamento, mais digno, mais formal, mais eficiente... Massificar a arte clássica é atitude polêmica num país neolatino no hemisfério sul. Sabemos disso; tende ao popularesco, ao político, ao tirar vantagem.

A literatura francana não cabe em duas ou três tendas na praça pública; a literatura francana, tantas vezes premiada nacionalmente (vide Vanessa Maranha, Perpétua Amorim a exemplos hodiernos), não pode caber numa varanda. E sábado vi, com tristeza, que a nossa orquestra sinfônica corre o risco de percorrer o mesmo caminho. Vai patinar... Vai doer (na alma e nos ouvidos), apesar de sua magnitude e o talento musical que lhe é inerente.

A arte francana merece maior empenho da municipalidade, porque ela traz em seu bojo artistas que honram a cidade com suas criações e empenho.

Como disse em outra ocasião, Nazir, estou à disposição para tentar lutar novamente com esses entraves, agora pela música, porque pela literatura perdi, salvo honroso e digno espaço no jornal Comércio da Franca e inestimável apoio cultural e financeiro do chanceler da Universidade de Franca, Clovis Eduardo Pinto Ludovice.

Forte abraço.

A modo mio, senza paura, senza rancore,

Everton de Paula.

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