As rimas da infância

Por: Sônia Machiavelli

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“Será que um poeta nasce/ No amanhecer do dia/ Ou será que já vem pronto/ Como se feito por magia?// Mas se assim for, ora essa/ Perde a graça por completo/ Pois se não se constrói poeta/ De que vale ser esperto?” Estes versos, assinados pela professora Dayana Ellen Mariano Faleiros, fazem parte da apresentação Como nasce um poeta, que lhe acudiu ao espírito depois de ler todas as criações que passariam a compor o livro Poesia, alegria que contagia, coletânea organizada por ela e suas colegas Cristiane Campos Lopes, Marina Vanini e Rafaela Pavão, do corpo docente do Instituto Samaritano de Ensino. Os poemas foram criados por alunos dos quartos anos daquela escola. Num primor de dedicação e coerência, Cristiane construiu o prefácio também em versos. Seguem-se as duas primeiras estrofes: “Um bom prefácio apresenta/ A obra ao seu leitor/ Prepara-o para as descobertas/ E revela seu autor// Um leitor espera a palavra/ De incentivo e motivação/ A fim de se interessar/ pela leitura em questão”.

Não é a primeira vez que esta escola tradicional na cidade publica livro com textos de seus alunos. Em outros gêneros literários já foram quatro antologias, o que considero extraordinário e muito louvável em tempo cibernético, onde o impresso aparentemente vai cedendo lugar ao virtual . No entanto, quem acompanhou de perto o estimulante trabalho da escola, pode dizer da gratificação das crianças na resposta ao desafio de produzir textos em versos. Mas não seria de se duvidar da excelência do que produziram, pois é sabido que os poetas, cada um a seu modo, brincam com a língua, retirando ao idioma significados e sons que fogem ao seu caráter eminentemente fático. A comunicação, na poesia, passa a ser outra, pois ela pertence ao conjunto de sinais que a alma e o coração emitem diante do mundo. Codificar os afetos, as surpresas, as descobertas; e os medos, os sustos, os estranhamentos, através da linguagem , é exercício que aproxima em algum nível profundo crianças e poetas. No mais superficial, ele é conduzido pelo desejo de brincar. O lúdico e o poético caminham juntos e não raro são sinônimos.

Os autores de Poesia, alegria que contagia, brincam com sons : “Minha prima Mirella/ é muito magrela./ Meu primo Felipe/ Gosta de andar de jipe”- Os parentes, de Aaron Wendel M. da Silva Campos. Criam neologismos: “ O homem Gatoelho/ Não faz nada o dia inteiro/ e só consegue mesmo/ é se olhar no espelho”- O Homem Gatoelho, Leonardo Silva Faleiros. Fazem relatos: “Aquela menininha/ Vivia como uma rainha/ Que tinha uma bailarina/ Cheia de purpurina”- Ana Rita Barbosa Lessa, A bailarina. Falam muito sobre natureza: “Vamos presevar/ Para os passarinhos cantarem/ E as aves voarem/ E o rebanho se juntar”- A natureza e sua pureza, Laís Almeida Alves. Lembram-se dos animais de estimação: “ Sou uma gata/ Meio estabanada/ Mas educada - A gata estabanada, de Ana Laura Peixoto Alves. Elegem como tema os amigos: “ Eu tenho muitos amigos/ Nós estamos sempre juntos/ Nossa vida nunca será só/ a gente se diverte muito” - Meus amigos, de Davi Ronca Ferreira. Mostram-se preocupados com o bullying: “Bullying é tristeza/ Só traz besteira/ E ganha o prêmio/ de malvadeza” - de Jônatas Jorente Granito, Bullying, aqui não! Algumas vezes até filosofam. Como Isabela Coral Ribeiro, que depois de descrever a doença do avô em dez versos, fecha seu poema assim: “ Um dia ele não aguentou/ O tempo passou. Ele morreu/ Então pensei: Por que a morte existe?” Ou como Anna Luiza Utzig Barbosa Souto, que lista entre as melhores coisas do mundo, “comer doces/ ter alguns amores/ não sentir dores”...

As professoras envolvidas neste bonito trabalho, que exibe uma face no livro mas oferece muitas outras ao olhar atento dos adultos, e o Instituto Samaritano de Ensino, que apoiou a ideia, merecem cumprimentos. Com este gesto de mobilizar os sentimentos, despertando o gosto pela palavra e suas potencialidades, vão além de uma postura que vem caracterizando alguns segmentos do ensino, qual seja, investir apenas em conteúdos. Educação passa também, entre outros caminhos, pelos dos afetos, da estética e do estímulo à capacidade de se expressar de forma criativa.

ANTOLOGIA

Noite de autógrafos

O lançamento do livro Poesia: alegria que contagia teve noite de gala. Pais, professores e amigos foram levar seu estímulo aos autores, no prédio do Instituto Samaritano de Ensino. Estavam lá os diretores da escola e as idealizadoras e entusiastas Cristiane Campos Lopes, Dayana Falleiros, Marina Vanini e Rafaela Pavão.

Depois da abertura , foi chamada ao palco uma contadora de histórias que manteve o auditório em clima de muita atenção, despertando risos e sonhos. Em seguida, os poetas infantes se postaram em mesas especialmente preparadas e aguardaram os presentes para apor seus autógrafos.

Na ocasião foi lembrado o que escreveu na orelha do livro a professora Verinha. Ela resgatou o poeta Mário Quintana ao dizer que “ quando se fala em arte de escrever poesia, a palavra em si não basta para se obter um bom texto. É necessário que ela seja trabalhada num processo de seleção e arrumação vocabular, ao qual damos o nome de linguagem poética. É a partir daí que as palavras escapam do dicionário, onde estavam frias e sem donos e ganham outros significados, adquirem vida e autonomia. Para as crianças, a rima ainda desempenha um papel fundamental no fazer poético. É o momento divertido em que brincar com as palavras se torna um prazer”.

E a partir desse prazer é possível adentrar com mais intensidade, como autor ou leitor, o mundo mágico da palavra que ergue mundos, a palavra literária.


Serviço
Título: Poesia: alegria que contagia
(sugerido pelo aluno Aaron Wendel Moreira silva Campos)
Autores: Alunos dos quartos anos do Instituto Samaritano de Ensino
Editora: Grafimpress
Número de páginas: 75
Capa: Danielle Cristina Moreira

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