No antigo faroeste

Por: Mauro Ferreira

Embora falte algum tempo para chegar a hora fatídica que a Godiva me telefona para dizer que começou a temporada da declaração do Imposto de Renda, lembrei-me dela bem antes neste ano. Explico por que.

Da penúltima vez que estive por lá levado por meu pai, sai corrido pela torcida adversária que queria bater nos jogadores da Francana. Faz tempo, quase 50 anos atrás, o velho campo do Rio Preto onde assisti ao jogo foi demolido. Voltei agora a São José do Rio Preto para mostrar as artes visuais francanas de qualidade numa exposição do Laboratório das Artes na Associação Comercial. Tudo mudou completamente, pois o povo rio-pretano hoje é hospitaleiro, carinhoso e divertido.

Quem nos ciceroneava era a artista plástica Cristiana de Freitas, a quem conhecíamos apenas virtualmente, apresentada por minha amiga e arquiteta Delcimar, que fez doutorado comigo e é famosa por ter sido miss Monte Aprazível. Depois da montagem da exposição, fomos a sua casa visitar o ateliê dela e da irmã, também artista. Parecia a casa da minha irmã Marilene, sempre cheia de gente. Seu pai é um agrônomo e fazendeiro em Rondônia. Ele e a mãe das meninas foram para lá e ficaram seis meses. Quando voltaram, as filhas tinham se apossado da casa para sempre. A sala e a edícula transformaram-se em ateliês, as paredes foram sendo ocupadas por obras e mais obras de arte. Restaram aos pais os dormitórios, uma pequena sala de TV e a cozinha.

Simpáticos, a conversa rolou tranquila. Para nossa surpresa, a mãe de Cristiana se apresentou como descendente de francanos, das famílias Jacintho e Lemos. Seu bisavô, num período de crise cafeeira, saiu de Franca em 1907, da fazenda São Manoel para o faroeste que era Rio Preto então, a boca do sertão antes mesmo da chegada da ferrovia Araraquarense por lá. Hoje, portanto, pertencem a uma família tradicional em Rio Preto, há mais de cem anos vivem lá, mas mantêm o interesse pela velha Franca.

Cristiana nos contou que tempos atrás, o bispo de Rio Preto pediu-lhe um projeto para restaurar a via sacra da antiga matriz da cidade, demolida para dar lugar a uma catedral horrenda. Ao pesquisar a vida do artista, veio a Franca para conversar com seus bisnetos, Rodrigo e Ricardo, que faziam um filme sobre ele. O Rodrigo é meu sobrinho, pois o pintor da via sacra foi o francano Alberto Ferrante.

Conversa vai, conversa vem, a mãe de Cristiana se lembra das primas, as irmãs Noquinha (que foi minha professora e da T. de catecismo), Nenzinha e Pequenina, que as visitavam em Rio Preto às vezes. Elas, por sua vez, são irmãs da Blandina, que vem a ser a avó da Godiva que faz o meu Imposto de Renda, por isso me lembrei dela. Ou seja, o planeta é mesmo muito pequeno. Ou, como já disse alguém, Franca deve ser mesmo o centro do mundo.

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