Torcedor

Por: Everton de Paula

Postei, no último domingo após o jogo Corinthians e Palmeiras, o seguinte: “Sou santista. Torço para o Santos desde criança, quando jogava futebol de mesa, o famoso jogo de botão. Mas hoje, em nome da beleza e graça do futebol brasileiro, curvo-me à técnica e garra do Corinthians e digo; PARABÉNS, FIEL! PARABÉNS, AMIGOS CORINTIANOS! PARABÉNS, CORINTHIANS, PELO PENTA BRASILEIRO!

E agora, rumo ao TRI MUNDIAL com Neymar e companhia!”

Antes, eu fazia parte da grande nação anticorintiana todos contra o Timão. Mas não adiantou muito não: Tite, Liedson e companheiros (além da ajuda da tabela e dos timecos cariocas), o alvinegro conquistou o caneco e não tem choro.

Mas a história de hoje não é essa, é outra. Havia o Calimério que trabalhava numa repartição pública da prefeitura . Homem honesto, caracterizava-se por fazer bem feito aquilo que lhe era atribuído. Nada mais, nem um tiquinho além disso. E não se tratava de preguiça era falta de proatividade mesmo, de iniciativa, de ousar quebras de paradigmas para o bem coletivo e da repartição. Aliás, vou fazer um parênteses aqui: (quando comecei a contar esta história para dois amigos, disseram-me eles que é assim mesmo no setor público, principalmente com o funcionário concursado. Ora, eu me recusei a aceitar este pressuposto. Que é isto? Fazer corpo mole além do necessário, só porque se é concursado? Duvido isto não ocorre no Brasil. Ainda mais no Brasil de Dilma, que mandou há pouco o Luppi embora do Trabalho).

Fecho os parênteses e retorno à história principal. Calimério. Participava de todas as festinhas, não fazia mal a ninguém; era tão neutro, mas tão neutro que nem mau-olhado o atingia. Para não dizer que era perfeito, ou eficiente e não eficaz conforme nos explica didaticamente a psicologia moderna, Calimério tinha lá seu defeitozinho: em se tratando de questões polêmicas, ficava sempre “em cima do muro”.

- Parece que vai chover, Calimério!

- É mesmo, acho que vai chover.

- Mas talvez não chova com essa ventania toda!

- Sabe que você tem razão?

Concordava e concordava. Por temer qualquer tipo de ameaça ou amuo de um colega e principalmente de seus superiores diretos, assumia sempre a última postura de quem quer que falasse ou opinasse. Por isso, não foi surpresa quando, segunda-feira passada, no serviço, na hora do cafezinho, Calimério se juntou aos colegas que, empunhando bexigas pretas e brancas, gritavam a meia-voz: “Corinthians! Corinthians!”

Alguém comentou:

- Oras, por que Calimério está aqui como corintiano? Ele participou das festinhas de comemoração após os dois títulos deste ano do Santos! Pra mim ele é santista e agora não quer engolir a conquista do Brasileirão pelo Corinthians. Não, definitivamente ele não faz parte da Fiel,

- E nem da torcida santista retrucou um outro colega . Eu já o vi torcendo entre amigos, num bar, pelo porco, o Palmeiras!

- Porca miséria disse um terceiro. Nem corintiano, nem santista, nem palmeirense. Ele já se confessou sãopaulino roxo, desde criancinha... Ou tá mole da cabeça ou não tem personalidade nenhuma esse nosso colega Calimério.

A conversa trouxe mais amigos que testemunharam a torcida de Calimério pela Ponte Preta, pelo Flamengo, pelo Fluminense, pela estrela solitária, pelo Internacional... Até que resolveram tirar a limpo essa conversa toda com o próprio Calimério. Foram direto ao assunto, encantoando o rapaz:

- Afinal, Calimério, para que time você torce?

O homem ficou sem-graça, desconversou, disse que gostava mesmo era de futebol e coisas assim. A rapaziada desconfiada e não satisfeita, apertou mais o pobre personagem:

- Pô, Calimério, você torce do mesmo jeito para qualquer time que se torne campeão. Num tá certo. A gente tem que ser fiel a um time, mais que a uma mulher ou a uma instituição. Time é time, meu. Eu até acho que a gente, quando morresse, deveria ser enterrado com a camisa do time de coração.

Bom, enfim desmascararam o Calimério e lhe passaram uma descompostura geral. O moço disse realmente que era assim mesmo, porque ele nunca tivera a oportunidade de ver o seu time campeão. Queria ter esse gostinho, mas o seu time não colaborava, não havia jeito, era um verdadeiro saco de pancadas. Nem sabia mais se estava na quarta ou na quinta divisão do futebol paulista, série Z. Os colegas ficaram com pena de Calimério e lhe perguntaram de forma peremptória:

- Afinal, para que time você torce?

Calimério baixou a cabeça, balançou um pouco a perna esquerda, desenhou com o bico do sapato uma meia-lua no piso e respondeu com os olhos postos no chão:

- Jabaquara, o glorioso da baixada santista!

Quando me contaram esta história, juro, pensei que ele iria responder “Francana”.

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