Reflexão sobre liberdade e intolerância

Por: Sônia Machiavelli

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Alejandro Amenábar é diretor que ainda jovem alcançou renome e respeito, conforme se pode conferir pelo currículo ao lado. Com toda a autoridade de cineasta que emplacou sucessos e prêmios, escolheu como título de seu último trabalho o substantivo Ágora. Este parece muito mais significativo que a versão ao português, Alexandria, para traduzir a história contada no belo e instigante filme lançado há dois anos, de repercussão desproporcional à sua excelência.

Alexandria, cidade localizada no Egito, foi fundada pelo macedônio Alexandre Magno, saudado pelos egípcios como o libertador que livrou o povo da sanha do rei persa Dario. Foi planejada para ser metrópole: no início da era cristã contava um milhão de habitantes e era a cidade mais populosa do mundo, com vida animada, barulhenta e frenética. Na ilha de Faros, que lhe era bem próxima, foi construída uma da sete maravilhas do mundo antigo: o farol de Alexandria. Outra de suas importâncias era a biblioteca.

No filme, a reconstituição cenográfica é deslumbrante, mesmo assim não justifica o título, pois o que o filme mais suscita é a discussão de conceitos como liberdade, tolerância e participação na vida pública, princípios básicos de cidadania que os gregos praticavam na Ágora. Grandes espaços urbanos, pontuados por mercados e feiras, era marcado pelo convívio harmonioso. Com direito a voz e vez. Foi Atenas quem exportou este modelo para vasta região.

Em Alexandria vivia Hipátia, e quando o filme se inicia, a vemos na biblioteca, aos 30 anos, já diretora da Academia Neoplatônica, e depois, em muitos momentos, na Ágora. Filósofa, matemática e astrônoma, sua personalidade e vida inspiraram muitos artistas. De Hesíquio, seu aluno judeu, que a descreveu como figura excelsa, a Rafael Sanzio que a fixou em tela mil anos depois; do historiador Sócrates, o Escolástico, que relatou em detalhes a sua terrível morte, a Carl Sagan, que lhe dedicou atenção no livro Cosmos, contando que “ela se moveu livremente e sem problemas nos domínios que pertenciam tradicionalmente aos homens. Segundo todos os testemunhos, era de grande beleza. Tinha muitos pretendentes mas rejeitou todas as propostas de casamento, dizendo já estar casada com a verdade.”

A verdade que move Hipátia a leva a uma busca obsessiva para entender a dinâmica do universo. Não satisfeita com as explicações de que a Terra girava em círculo ao redor do Sol, mergulhou em experimentações e estudos até descobrir que o deslocamento do planeta descrevia uma órbita em elipse. Esta descoberta, que redunda numa das cenas mais bonitas do filme, será ratificada pelo astrônomo alemão Kepler, no século XVII.

Mas seu compromisso com a razão e a lógica a leva a desenhar a própria tragédia quando, a partir do ano 412, Cirilo é nomeado Patriarca de Alexandria, título de dignidade eclesiástica, usado também em Constantinopla e Jerusalém. O Cristianismo, tornado religião oficial do império romano, do qual Alexandria fazia parte, passa a ser sinônimo de intolerância. Esquecem-se seus seguidores de que por mais de três séculos haviam sido excluídos e estigmatizados. Neste clima de violência, que uma legislação oriunda de Roma procura inutilmente coibir, Cirilo enfatiza sua ortodoxia e seu fundamentalismo, objetivando destruir qualquer um que não se converta. Hipátia, negando-se ao batismo, atravessa o caminho do fanático e lhe diz ter visão de mundo essencialmente filosófica, o que elide qualquer crença religiosa. Considerada bruxa e ateia, acaba servindo de pretexto para uma ação política que tira de cena seu amigo Orestes, prefeito da cidade. O martírio de Hepátia no ano 415 de nossa era torna-se emblemático de milhares de outros, entre as quais o do célebre Giordano Bruno, em 1600. Foram muitos séculos de fogueiras.

O diretor constroi o filme sobre duas linhas que caminham paralelas até o terço final da história, quando se cruzam, e a primeira, a político-religiosa, destrói a segunda, a pessoal, que gravita em torno dos estudos e conclusões da protagonista. Ao postularem as fontes literais do Evangelho, os que se dizem seguidores de Cristo não alçam a parábola ao nível metafórico, e assim a deixam reducionista. Não ficam muito claras as razões deste comportamento dos ‘parabolanos’, se cegueira emocional, interesse político ou incapacidade de “parar e pensar naquilo em que se acredita”, como professa essa figura iluminada que foi Hipátia. Talvez todos os motivos tenham se reunido para deflagrar tanta selvageria em nome de Cristo.
 

DIRETOR DE MAR ADENTRO

Alejandro Amenábar

Nascido na capital do Chile, Santiago, Alejandro Amenábar ainda não completou 40 anos e já soma prêmios expressivos com suas realizações. Em 2004 ganhou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro com Mar Adentro, que contou com Javier Bardem no papel principal. Este filme também lhe garantiu indicações em importantes festivais, como melhor argumento e realização. O BAFTA, sediado na Inglaterra, reconheceu em 2001 a qualidade de Os outros, que teve Nicole Kidman como protagonista. No mesmo ano o Goya também premiou Amenábar pelos dois filmes citados.

Chileno por nascimento, o cineasta vive na Espanha desde o primeiro ano de vida, de forma que se sente à vontade para se definir como diretor chileno-espanhol. Em Madri fez todos os seus estudos, desde o fundamental até o curso de Imagem, na Universidade Complutense.

Sua estreia se deu em 1991 com La Cabeza. Em seguida fez Himenóptero (1992), Luna (1995), Tesis (1996), De olhos abertos (1997), Mar adentro (2004) e o resenhado Ágora, em 2009.

Nenhum de seus filmes trata de histórias lineares, embora todos sejam de simples compreensão. Há sempre um convite para mergulhar no universo do outro, tão diferente do nosso, embora também muito parecido, dependendo das circunstâncias e dos olhares.


Serviço
Título: No original, Ágora; em português, Alexandria
Ano: 2009
Diretor: Alejandro Amenábar
Elenco: Rachel Weisz, Max Minghella, Oscar Isaac, Rupert Evans.
Onde: nas locadoras

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