A escola, a toga e o menino

Por: Wagner de Campos

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Na fila da nova escola, Mateus deixara para trás amiguinhos, professora e Patrícia, a melhor amiga. As crianças cochicham e, às vezes, olham indiferentes para ele. Os garotos usam tênis de marca, enquanto sua botinha não é de passeio, mas igualzinha a de seu pai, administrador de fazenda, tão contente ao ver o filho caçula bem encaminhado. Voto de sua patroinha, segredo revelado a sua mulher: “meu filho advogado assumindo a toga, o afilhado Mateusinho estudará na cidade”. Voto de dona Clarice à santa de sua devoção. Graça alcançada. Filho único na magistratura, procissão para inauguração da capela e afilhado na escola. Promessa cumprida!

Prédio com sala de teatro, cinema, Biblioteca e a madrinha sempre comentando sobre um tal de laboratório e lousa informatizada. Eufórico, Mateus sonha desbravar corredores, conquistar escadarias e abrir o caderninho de textos. Misto de alegria, medo e esperança. A mãe ficara no portão e ele na fila evitando olhares curiosos, segura com força a mochila diferente... diferente, mas cofre de precioso tesouro.

Dona Marina abraça o novo aluno, egresso da zona rural. A professora quer saber sobre sua ex escola. Ele abre a mochila e feliz, mostra a bola de meia, produto final do último projeto da aula de Artes. Bola de meia e no dia do futsal? Risos inevitáveis. O mundo desaba, Mateus abaixa a cabeça, esconde o rosto e a bola vai ao chão. A professora apresenta desculpas, elogia o brinquedo, cultura do folclore brasileiro e pede à Patrícia devolver-lhe a bola. Aquele nome faz o menino acordar do pesadelo e ao erguer os olhos ouve a coleguinha: “não fique triste”. Delicadamente a pequena entrega a bola de meia. “Temos mais um jogador”, emenda Patrícia com afeição. Bruno, capitão do time, afirma que o brinquedo é diferente. Mateus o interrompe: “eu não quero jogar”. A decisão é o assunto, as coleguinhas incentivam, pois não engoliriam novo fracasso diante daquelas meninas abusadas do 4º ano.

A professora orienta a tarefa semanal de casa: temas contextualizados propostos para redação: A grande final, Bola de meia, O aluno da zona rural, O craque do campeonato, entre outros.

Hora do jogo, faixas e cartazes. Plateia de 400 crianças e familiares assistem o espetáculo. O árbitro é um bombeiro, vizinho da escola. As torcidas duelam com gritos de guerra. Após o Hino Nacional tem início a tão aguardada finalíssima. Logo está 2 x 0 para o outro time. Assustado, o 3º ano não reage e chega o intervalo. As meninas sugerem a presença de Mateus. Este, ainda amuado, não quer participar, sempre brincou descalço.

Patrícia não se contém: “se as meninas pedirem, você defende a nossa classe?” A meiguice da xará de sua melhor amiga o convence. Veste a camisa e recebe um par de tênis. Placar de 2 x 0 e o jogo recomeça. Os pais vibram, fotografam e a TV local reporta tudo. Cinco minutos do segundo tempo e nada mudou. Titulares e reservas, todos testados.É a vez do menino da bola de meia. Na tribuna de honra, vê a madrinha Clarice, também diretora da escola, ao lado do filho togado que tão bem o conhece. O Magistrado evocando a jurisprudência prática do campinho de terra batida, em linguagem mímica, exara sentença de confiança plena na habilidade do craque: bate palmas e acena com sinal de positivo.

O menino estreia em quadra coberta. Carinho e capricho nas primeiras jogadas, gosta do tênis, da bola, logo está à vontade. Ganha confiança, dribla e à frente sofre falta. O capitão Bruno, forte nas bolas paradas, corre, aponta e faz 2 x 1 . É gol. As torcidas duelam. A mestra polivalente, técnica de futsal está afônica, chora, ri, grita e orienta.O jogo é difícil, Mateus recebe a bola, passa pelo marcador, dribla outro, lembra das jogadas da fazenda e chuta para empatar: 2 x 2. É gool! O 3º ano quase invade a quadra.

Bola em jogo, rivalidade aumentando e barulho ensurdecedor de um espetáculo contagiante. Em jogada infeliz Mateus bate a mão na bola: pênalti! Silêncio, tudo pode acontecer. As alunas rezam de mãos dadas... milagrosamente o goleiro defende com os pés. O 3º ano vai à loucura. Continua tudo igual: 2 x 2. Esperança de ambos os lados.

É a última volta do ponteiro. Em clima de decisão, Mateusinho com suas jogadas surpreendentes conquista o público que grita seu nome. Ele recupera a bola no meio de campo, tabela, recebe de volta, ameaça por um lado, sai pelo outro, mais à frente pedala uma, duas... pedala 3 vezes, a galera vai ao delírio... a bola entre as canetas, o adversário cai, surge outro defensor que é deslocado com um gingado de corpo. A defesa do 4º ano se recompõe, Mateus aplica um balãozinho, protege a bola e se lança à frente para dominá-la novamente, e em cima da hora desviando do goleiro, num toque magistral faz 3 x 2 ... goolaço! aço! aço! Mateus, a surpresa do 3º ano faz o gol do título.

A repórter da TV pergunta: “Você é o novo Neymar? Tem algum sonho?” Sorrindo, ele responde: “Futebol pra mim é diversão, meu sonho é a toga, quero ser Juiz de Direito”. O campeão olha pra tribuna de honra e devolve o aceno ao Magistrado, mandando beijos para a madrinha Dona Clarice, a piedosa, e sai correndo. O pequeno herói corre pra os braços da nova professora, educadora por excelência, que aos prantos, comemora vitória mais importante: a inclusão do menino da bola de meia!
 

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