Carneirinhos

Por: Luiz Cruz de Oliveira

A freqüência assídua, a leitura permanente de livros e apostilas, a concentração plena nas aulas significaram sacrifícios e renúncias. Aconteceram muitos fins de semana em que sequer saíra com a namorada para um lanche, para um cinema, para um passeio no shopping. Tudo valeu a pena, porém.

O aprendizado no curso técnico possibilitou aliança entre teoria e prática, e isso impulsionou sua ascensão na metalúrgica onde já trabalhava.

Começou a galgar sucessivos postos até alcançar os de comando e, obviamente, a receber salários condizentes com as novas funções. Trabalhava muito, é fato, mas aos sábados, levava a namorada para jantar em restaurantes.

Acostumado ao trabalho e ao gasto com parcimônia, engordou depressa sua poupança bancária. Mais um pouco de economia e a conversa com namorada giraria em torno de casamento. E foi pensando nisso que cometeu risco: aplicou suas rendas na Bolsa de Valores, adquirindo ações da Petrobrás.

E foi aí que as coisas começaram a mudar.

A namorada foi agraciada com bolsa de estudo na Austrália, ficaria fora do país por dois anos.

- E nós?

- Ora, querido... A Austrália fica ali... hoje não existe mais distância...

A distância existia, sim. Falavam-se pouco e cada vez menos. Eram muitas as dificuldades da mulher: pesquisas, estudos, visitas a universidades, trabalhos de férias...

Os engenheiros da Petrobrás pesquisaram também, encontraram novas reservas de petróleo no fundo do Atlântico. As ações da empresa ficaram valorizadas. O rapaz vendeu todas, comprou casa em bairro residencial de classe média. Decidiu conversar com os pais da namorada, fixar compromisso de casamento.

A mulher se antecipou. Em carta de cinco, seis linhas, comunicava que a aventura juvenil dos dois jamais seria esquecida, mas que se apaixonara, casava-se com estudante australiano.

Tomei conhecimento do drama quando o rapaz veio ao meu consultório, alegando necessitar da ajuda de um psicoterapeuta.

Como é de praxe, esteve envergonhado e constrangido nas primeiras sessões. Quando se convenceu de que o consultório médico se assemelha a um confessionário, certo de que seus segredos permaneceriam enterrados em túmulos, abriu-se aos poucos. Ao fim, revelou que não conseguia dormir. Os pesadelos impediam seu repouso. Instei. Ele explicou tudo: era só fechar os olhos, querer conciliar o sono, e uma dúzia de cangurus invadiam o quarto, saltitando sem parar.

Estabelecido o diagnóstico, agora tudo fica mais fácil. Meu trabalho consiste em tentar trocar os cangurus por carneirinhos. Acredito que, em menos de dois anos, alcançaremos esse resultado. Depois, em poucos anos, ele aprenderá a contar os carneirinhos e dormirá como criança.

É claro que existe sempre o perigo de aparecer um lobo rondando o rebanho.

Mas a gente se preocupa com isso depois.

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