Ritual para o trabalho do Luto

Por: Maria Luiza Salomão

“precisamos de livros que nos afetem como um desastre, que nos deixem profundamente tristes como se alguém tivesse morrido, alguém que amássemos mais do que a nós mesmos, como se nos perdêssemos de todos numa floresta, como um suicídio. Um livro tem de ser uma rachadura no oceano congelado que temos dentro de nós.”

Kafka, em epígrafe no livro de
Nina Sankovitch

O livro de Nina Sankovitch descreve o Rito que acompanhou o seu Luto pela perda da irmã mais velha, Anne-Marie. Família de origem imigrante, os pais e as três irmãs sempre desfrutaram, unidos, grande Prazer em Ler.

O livro de Nina se chama O Ano da Leitura Mágica, publicado pela Ed. Leya (Tolstoy and the purple chair: my year of magical reading), 2011, 230 pg. Ela se comprometeu a ler, durante um ano, um livro a cada dia, e resenhá-lo, sentada em uma poltrona roxa, acomodada em um espaço onde pouco mais existia além de duas prateleiras a alojar livros emprestados da Biblioteca, comprados ou emprestados pela família (ou recomendados pelos amigos, ou o filho). Ela publicou as resenhas (e ainda publica, sem a autoimposição diária) em um site, descoberto pelo jornal New York Times (v. Google).

Nina, em linguagem simples e direta, compartilha a complexidade do fenômeno do Luto, com “a little help of (her) friends” (uma ajudinha dos bons companheiros, os livros!). Nina elabora a perda da irmã amada, voraz leitora tanto quanto ela, lendo e escrevendo. A maneira como lê (e usufruímos de suas reflexões sobre os textos lidos) constrói as Pontes de Afeto com sua família, entre os pais e filhas, entre as irmãs. Livros deixam de ser meras palavras impressas, ou erudição vazia.

Os “seus” livros são sentidos como Prazer, Fuga, Refúgio, Reflexão. Lemos, através da experiência de Nina, o valor do Livro, quando é anunciado, na mídia, o seu desaparecimento. Livros, para Nina, são seres vivificados pelos leitores, estes que têm compartilhado de sua Viagem.

Admiro a Determinação, a Disciplina, a Devoção aos seus sentimentos de Dor, e este meio eleito por Nina de imortalizar sua irmã querida. Trajeto que a enriqueceu emocionalmente, que não a deixou banalizar a sua perda, e a fez recuperar um Sentido Maior para sua vida, e para a Família (a de origem e a que constituiu, com quatro filhos e um marido companheiro).

Todos a compreenderam e a apoiaram. Que amor Nina pôde (e ainda pode) experimentar, através do seu gesto, das pessoas que a cercam! Ela reuniu suas dores em um ninho de palavras. E ganhou outros “irmãos” no mundo inteiro, que celebram esta Magia que acontece entre Autor & Leitor.

Ler um livro inteiro, todos os dias, pressupõe que tarefas serão adiadas. Ela parou de trabalhar, e empreendeu este outro trabalho Psíquico - através de uma longa e corajosa Odisséia, de um ano, muitas vezes noturna, sentada em sua poltrona roxa, manchada de leite, suja pelos muitos gatos da família. A poltrona roxa abrigou a alma de Nina, vagante e sofrida, carregada pelas Asas de Sonho de seus amigos “conselheiros” . Diz Nina:

“, mas qualquer interrupção da vida frenética, dos dias cheios de ocupação, pode restaurar o equilíbrio de uma vida virada de cabeça para baixo. (...) Todos precisamos de espaço para deixar que as coisas se acomodem, um lugar para nos lembrarmos de quem somos e do que nos é importante, um intervalo que nos permita que a felicidade e a alegria da vida voltem à nossa consciência”.

Difícil ser a sobrevivente. Nina, identificada com Anne-Marie morta, a cada estação do Luto, em meio aos seus hiatos, teceu lentamente os fios trêmulos da Vida parida em palavras, e nasceu novamente.

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